Conto | O Fantasma e a Visita7 min de leitura

Mal havia acordado e estava na cozinha fazendo café. O cheiro da bebida começava a se espalhar pelo ar quando peguei algumas bolachas para acompanhar, não queria comer nada pesado.

— Então, quais são os planos para hoje? — Senti um calafrio enquanto ouvia uma voz feminina conhecida. Ela tinha esse costume de surgir do nada.

— Bom dia Val.

— E então, migo? — Ela balançou a cabeça em minha direção, esperando uma resposta. Seu cabelo castanho acompanhou o movimento da cabeça enquanto ela cruzava as pernas de um jeito estranho que a fazia parecer minúscula dentro da poltrona enorme.

— Tenho uma entrevista de emprego daqui a pouco — os olhos de minha amiga se arregalaram, então me adiantei — Mas quero ir sozinho dessa vez, por favor.

Abaixei a cabeça para remover a jarra da cafeteira e senti que ela me olhava. Antes que pudesse pensar no porquê a campainha tocou. Olhei confuso para porta já que não esperava ninguém tão cedo.

Val prontamente saltou do sofá. Ela foi na direção da porta, mas a ignorou e atravessou parte de seu corpo pela parede para olhar quem era. Em alguns segundos, recuou e voltou a aparecer inteira dentro de casa.

Olhei tranquilo em sua direção e esperei uma resposta. Demorei para me acostumar com ela aparecendo, o tempo todo, em qualquer lugar — qualquer lugar mesmo — sempre cheia de vida, alegre e curiosa.

Desde sua morte, há uns dois anos, ela tem morado comigo aqui em casa. Mesmo nessas circunstâncias, sua presença não é nada estranha. Crescemos juntos, morávamos na mesma rua, estudamos nas mesmas escolas, até a faculdade foi a mesma, embora com cursos diferentes. Somos amigos desde sempre.

Val diz que ficou para me ajudar a lidar com sua partida, mas às vezes desconfio que é ela quem não aceita que terá de seguir em frente um dia.

— É a menina que você saiu sábado. A que tem tique e mania de perseguição.

— A Márcia não tem tique.

— Ah, é? — Val piscou várias vezes e tremeu a cabeça enquanto me encarava. — Então, tá. Não vai atender?

Revirei os olhos e fui atender a porta. Mesmo após todo esse tempo, quase esperei que a Val fosse fazer isso. Andei sério e tentando ignorar sua presença o máximo possível.

— Oi Márcia. O que faz aqui tão cedo?

— Você comentou que tinha entrevista hoje, lembra? Só queria te desejar boa sorte — Ela me encarou, o sorriso vacilante esperando uma resposta, piscou algumas vezes e tremeu a cabeça.

Olhei de esguelha para minha amiga, que segurava a respiração. Pressionei meus dentes e arregalei os olhos para me conter, mas minha tentativa de permanecer sério só fez parecer que estava tendo um derrame. Márcia me olhou preocupada, sorri e respirei fundo, pensando em qualquer assunto para continuar a conversa.

— Quer café?

— Humm, o cheiro tá bom hein. Quero sim.

Fechei a cara para Val enquanto fechava a porta. Ninguém mais conseguia enxergá-la, o que tornava qualquer interação dela comigo em público um risco de parecer um maluco.

Peguei uma xícara na pia e enchi com o café e entreguei a Márcia. Havia saído com ela no último sábado. Fomos ao cinema, jantamos e, por mais que eu tenha insistido do contrário, ela me trouxe em casa já que estava de carro. A noite foi boa, mas ainda não tinha nem pensado se íamos sair de novo.

— Não tá atrasada pro trabalho?

— Imagina, saí um pouco mais cedo hoje. Não posso nem pensar em chegar atrasada, estão querendo me mandar embora.

— Nossa! — Olhei em volta perdido.

Olhei para o relógio na parede e vi que a hora estava passando mais rápido do que eu pensei.

— Já está quase na hora de eu ir — Márcia arregalou os olhos, sorriu e ficou parada bebendo café — Vou me trocar e já volto.

Fui para o meu quarto e abri o guarda-roupa. Havia passado três camisas na noite anterior devido a indecisão do que vestir e estava encarando-as, minha mente voando da minha acompanhante na cozinha até o nada. Passei vários segundos analisando as três com o olhar vazio, sem na verdade ver o que estava bem a minha frente.

Com o tempo de convivência, e a ajuda de um pequeno calafrio na espinha, aprendi a sentir quando Val estava por perto. Ela encarou minhas costas durante um tempo até que bufou impaciente.

— Até a doida lá na sala já tá começando a estranhar a demora.

— Eu nem sei o que dizer.

— Ela tá andando de um lado pro outro, toda insegura. Com certeza ela está afim.

— Eu também estou.

Minha amiga abriu os braços aguardando e desviei o olhar.

— Você sabe que ela é a primeira com quem eu saio desde que terminei. Não queria criar expectativas e quebrar a cara de novo.

— Eu sei. Mas não é justo com ela ficar lá sem saber o que está acontecendo. E também não é justo com você, não se dar pelo menos uma chance. Quantas você acha que eu tenho?

Fiquei um segundo em silêncio absorvendo o soco no estômago.

Puxei uma das camisas e comecei a vestir por cima de minha camiseta branca. Mal coloquei o primeiro botão e voltei a encarar o nada, mas dessa vez com uma decisão tomada.

— Ela deve estar tão nervosa quanto você.

Respirei fundo e terminei correndo de abotoar a camisa. Passei a mão no cabelo, sorri para o espelho na parede para olhar os dentes, peguei a carteira no criado mudo e encarei minha amiga. Às vezes precisava da Val para me puxar de volta para a realidade mais do que gostava de admitir.

— Eu sei. Já decidi o que fazer.

— É isso ae!

Val levantou a mão espalmada no ar e aguardou. Levantei os ombros, mas contive meu impulso de levantar a mão e responder ao high five. Ela sempre me pegava com essa. Not today, Satan. Pisquei em cumplicidade e sai sorrindo discretamente.

Assim que entrei na sala, vi que Márcia estava na cozinha colocando a xícara na pia. Ela levantou os olhos e me encarou, esperando que eu tomasse iniciativa. Meu silêncio fez seus olhos irem dos meus para o chão enquanto ela secava as mãos.

Val apareceu, deitou no sofá e apoiou o queixo com uma das mãos, entediada. Encarei-a e tentei fazer sinal para que ela saísse, mas a falecida se limitou a se fingir de desentendida.

— Então, eu preciso ir andando. Já estou ficando em cima da hora.

— Quer carona?

— Não precisa não, pode deixar — seus ombros baixaram do nada e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, me apressei — Eu gostei de ficar com você, sério. Já fazia tempo que não saía com ninguém.

Vi um sorriso discreto surgir em seu rosto.

— Posso te ligar mais tarde pra gente sair? —  completei e vi o sorriso se alargar ainda mais.

— Finalmenteee alguém tomou uma atitude nesse lugar! — gritou Val. Arregalei os olhos enquanto sentia meu rosto esquentar e sorri para Márcia.

— Claro que pode — Ela respondeu — Já vou indo então. Boa sorte lá.

Nos abraçamos rapidamente e a acompanhei até a saída. Respirei fundo assim que fechei a porta atrás dela. Ela parecia mais tranquila quando saiu, o que me dizia que eu não veria muitos tiques, ou o que quer que seja, quando nos víssemos de novo.

— E aí, quem sabe você pode parar de se esconder ou ignorar ela também — completou Val, que às vezes eu desconfiava que podia ler meu pensamento.

Minha amiga foi até a porta e se esticou para fora de casa por alguns segundos.

— Ela tá toda radiante. Acho que alguém está atrasado, não?

— Verdade.

— Hora de mais diversão, haha.

Revirei os olhos enquanto pegava a pasta em cima da mesa e corria para a porta.

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Diego Vieira

Paulistano, formado em Marketing e viciado em séries. Ler é outro vicio que possui. Começou com Agatha Christie, passou por Sidney Sheldon e conheceu a obra de James Patterson, que influencia muitos de seus trabalhos em desenvolvimento. Comprou um kindle, mas não abre mão do livro físico e sempre tem um a mão. Ama contar histórias desde que aprendeu a falar e sonha viver disso. Acredita que qualquer situação pode gerar uma boa história, principalmente com uma dose de mistério e fantasia.
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