Resenha | A Revolução dos Bichos6 min de leitura

A HISTÓRIA POR TRÁS DA ESTÓRIA

Nos últimos anos, autores de qualquer lugar do mundo passaram a contar com novos meios para publicar suas obras. A autopublicação eliminou as barreiras que impediam muitas delas de verem a luz do dia, possibilitando a independência do crivo editorial. Em 1943, não havia tal opção.

A Revolução dos Bichos (Animal Farm, no original em inglês), de George Orwell, teve um começo difícil. O livro foi recusado várias vezes por diferentes editoras. Segundo o autor, no prefácio da primeira edição inglesa de 1945, o livro era “inconveniente”, e a recusa das editoras em publicá-lo era um sintoma de um processo de enfraquecimento da tradição liberal ocidental.

Na época, a URSS era um aliado importante nos esforços de guerra contra a Alemanha. Assim, uma política de tolerância para com o ilustre aliado foi sendo gradualmente adotada pela intelligentsia inglesa. Falar mal de Stalin e de seu governo era então “coisa que não se faz”.

A ideia de que em algum lugar do mundo um país socialista prosperava, era sedutora e segundo Orwell, os intelectuais ingleses, que deveriam preservar a realidade e zelar pelos fatos, faziam vista grossa para as falsificações históricas descaradas cometidas pelo aliado.

Orwell sempre deixou claro que sua intenção com o livro era denunciar o mito soviético. Para isso, decidiu que precisaria escrever uma estória que fosse fácil de compreender, especialmente para aqueles que não tiveram acesso a uma educação privilegiada. E isso ele faz muito bem.

O autor se esforçou muito para que o livro chegasse a quem mais precisava. Por isso, bancou do próprio bolso os custos de produção para uma edição russa, direcionada a soldados e outros leitores atrás da Cortina de Ferro, e fez questão de não receber direitos autorais sobre traduções voltadas a populações carentes demais para comprar o livro. Entre elas, podemos citar as edições em persa e em telugu.

O primeiro idioma para o qual o livro foi traduzido foi o ucraniano, direcionado aos campos de refugiados ucranianos, organizados na Alemanha pela Inglaterra e pelos Estados Unidos no final da segunda guerra. Esta resenha foi baseada na edição da Companhia das Letras, de 2007.

Capa do livro A Revolução dos Bichos, pela Companhia das Letras
A Revolução dos Bichos, pela Companhia das Letras
A ESTÓRIA

Orwell faz um excelente trabalho na narração em terceira pessoa. É a voz do narrador, sempre inquieta, que alerta o leitor sobre as sutis mudanças que aos poucos desfiguram o sonho lindo de uma fazenda dos bichos. O narrador transita entre os pontos de vista de diversos animais da fazenda, mas nunca dos porcos, que se mantêm isolados ao longo da estória.

O narrador é sempre um espectador, ao lado do povo, à mercê dos grandes eventos que vão moldando a estória, ilustrados com maestria na mudança gradual e não muito sutil dos Sete Mandamentos.

Tudo começa com um discurso apaixonado do Velho Major, um velho porco cujos ideais acabaram inspirando a Revolução dos Bichos. Para ele, os humanos eram ruins e os animais poderiam governar a si mesmos. Apenas três noites após seu tranquilo falecimento, a Revolução acontece, e numa batalha atrapalhada os bichos da fazenda expulsam o Sr. Jones.

Sem um humano para controlar a fazenda, os porcos tomam a liderança naturalmente. Entram em cena Napoleão e Bola-de-Neve. Destes, Bola-de-Neve é de longe o mais idealista. Seus planos ambiciosos anunciam um futuro brilhante. Seu plano de maior destaque é a construção de um moinho na fazenda. Com ele, os animais teriam iluminação a noite, aquecimento e o mais importante, precisariam trabalhar menos do que antes.

A narração dos primeiros capítulos adota um tom muito esperançoso e alegre, refletindo o estado de espírito animado dos animais da fazenda nesses promissores primeiros dias da Revolução. Mas à medida que a narrativa avança, o tom da história vai ficando mais e mais sombrio. Quando Bola-de-Neve é anunciado como traidor, os animais da fazenda se veem numa situação cada vez mais ambígua, e não têm mais certeza sequer da sua história. As coisas eram melhores antes? Ninguém mais parece saber.

Os capítulos curtos do livro, com cerca de dez páginas cada, tornam a leitura ágil e nos mantêm virando as páginas, deliciando uma história cuja cobertura é simples e acessível, e que ao mesmo tempo é recheada de material para fazer pensar o mundo criticamente. E esse é, em minha opinião, o maior trunfo desse livro.

OS PERSONAGENS

A estória é povoada por vários personagens marcantes, e cada um deles está ali para mostrar ao leitor uma das facetas da vida na Fazenda dos Bichos, e por analogia, dentro da União Soviética. Cada um deles representa uma fraqueza humana, passível de ser explorada por demagogos mal intencionados.

Sansão é de longe um dos personagens mais importantes do livro. O cavalo mais trabalhador da fazenda segue por toda a estória com a sua fé inabalável num futuro melhor. Incapaz de compreender a situação em que se encontra, sua solução para todo e qualquer problema é trabalhar mais ainda, e é isso o que o torna o personagem mais vulnerável da estória. O leitor com certeza se emocionará ao ver a trajetória desse personagem tão carismático.

Os animais da fazenda em uma cena do filme de 1954
Cena do filme de 1954

Quem merece atenção especial é Benjamin, o burro. Ele é o único personagem que parece compreender, além dos porcos, o que está acontecendo. E ainda assim, desperdiça cada oportunidade de agir, calando-se. Ele está ali justamente para lembrar o leitor de que quem não age em vista da possibilidade é também, em certa medida, um cúmplice.
Vários dos personagens da estória estão ali para representar, por alegoria, certos grupos da sociedade. A vaca Mimosa, por exemplo, sempre preocupada com seu lacinho vermelho, é uma representação perspicaz da burguesia. Já o corvo Moisés representa a igreja ortodoxa.

Entre os porcos, Napoleão é um retrato claro de Stalin. Sob sua liderança, o destino da Fazenda dos Bichos vai se tornando cada vez mais incerta. Bola-de-Neve representa os idealistas socialistas, em especial Marx e Lenin.

FINALIZANDO

Não é à toa que A Revolução dos Bichos figura em 31º lugar na lista dos melhores romances do século XX organizada pela Modern Library List. A obra, que compartilha muitos elementos com 1984, outra obra incrível de Orwell, além de ser uma das obras mais influentes do século XX, se mantém extremamente atual em dias tão polarizados como os de hoje, e vale a pena ser conferida.

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Dyego Maas

Catarinense nascido um ano antes do lançamento do telescópio espacial Hubble, trabalha com desenvolvimento de software há oito anos em Blumenau. Leitor ávido de ficção científica e fã do terror cósmico lovecraftiano, adora ouvir audiobooks durante as peregrinações diárias para o trabalho. Jogador de videogame, aprecia jogos indie com sutilezas estéticas e foco narrativo. Num momento de loucura, vislumbrou uma realidade alternativa onde seu ganha pão vinha não de programas de computador, mas de histórias, e já que não pode viajar para aquela realidade, decidiu mudar a própria.
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