Resenha | Em Águas Sombrias3 min de leitura

Segundo romance de Paula Hawkins, “Em Águas Sombrias” (Record, 2017) apresenta o drama vivido pelos habitantes da pequena Beckford, cidade situada no norte da Inglaterra conhecida pelos diversos afogamentos de mulheres ao longo dos séculos. Essa trágica sina começa a mudar quando Jules Abbot recebe em Londres a notícia de que Nel, sua irmã mais velha, também foi encontrada sem vida no local conhecido como “Poço dos Afogamentos”. Obrigada a retornar ao lugar que a traumatizou na adolescência, Jules se vê diante de um mistério que envolve não só a morte da irmã como seus próprios fantasmas do passado.

Logo na chegada à fictícia Beckford, descobrimos que Jules não mantinha relações com a irmã e a sobrinha Lena, uma garota rebelde de 15 anos que nunca conheceu o pai. Aos poucos, Jules reconhece na sobrinha os mesmos traços de personalidade de Nel e as lembranças de um passado doloroso marcado pela total incompatibilidade de gênios das irmãs começam a vir à tona.  Paralelamente, as investigações sobre o suposto suicídio de Nel nos coloca diante de uma gama de personagens na qual todos parecem esconder partes de um grande quebra-cabeça.

Em mais uma mescla equilibrada de drama e suspense, a autora do sucesso “A Garota no Trem” (Record, 2015), aborda os piores aspectos de uma sociedade marcada pela misoginia e pelo conservadorismo enquanto desenvolve um mistério com nuances sobrenaturais. Repetindo a fórmula de seu romance de estreia, Hawkins optou por múltiplos pontos de vista, alternando de Jules Abbot a outros personagens formando uma espécie de teia narrativa que captura toda a atenção do leitor no decorrer das 364 páginas do livro. Contudo, com uma pitada a mais de ousadia desta vez.

capa do livro "Em Águas Sombrias", de Paula Hawkins

Ousadia que pôde ser constatada em entrevista recente à Folha de São Paulo: “Eu não queria fazer ‘A Garota no Trem 2’ que seria o mais fácil”, diz Hawkins, que visitará o Brasil em setembro como autora convidada pela Bienal do Livro que será realizada no Rio de Janeiro. De fato, as semelhanças entre as duas obras estão no olhar mais voltado para o conflito interior dos personagens e na constante mudança de ponto de vista. No entanto, além do número maior de perspectivas, a alternância de primeira para a terceira pessoa torna o romance singular: “Narrar em terceira pessoa foi o jeito que eu tive para não contar tudo o que o personagem revelaria se narrasse o capítulo ele mesmo”, justifica-se à Folha.

E é esse ímpeto de surpreender, de falsear a verdade, o condutor de uma trama imprevisível que acompanha o leitor da primeira à última página. No fim, entendemos que, além de ser uma história de suspense, “Em Águas Sombrias” é um protesto contra uma sociedade que ainda vê mulheres que não se enquadram nos padrões tradicionais como “encrenqueiras” a serem punidas. Nesse cenário, qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência.

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M.C. Magnus

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura para trazer à tona histórias fantásticas que ficaram aprisionadas em algum lugar do passado.
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