Conto | Força da Natureza

Por: Diego Vieira

Após horas de caminhada, o explorador viu algo que mudaria sua vida para sempre. As pernas cansadas fraquejaram quando ele parou para tomar fôlego e observar os itens a sua volta.

Itens. Mercadorias. Esses foram os termos que passaram pela sua mente assim que percebeu o que era a vastidão colorida que ele estava desbravando cada vez mais. A fonte de desejo era a floresta amazônica, onde, perto da fronteira com o Acre, o explorador soube que poderia encontrar não só plantas, mas também pedras raras para vender.

Ele se curvou e olhou com mais cuidado para uma planta roxa que não conhecia. Era raro que não reconhecesse algo da vasta flora do país. Desde as folhas roxas pontudas até os filamentos alaranjados, o espécime ganhou sua curiosidade, já que havia poucas como aquela naquela clareira. Já imaginava quais eram suas propriedades e o quanto poderia faturar com ela.

Rapidamente, tirou uma tesoura do bolso e mediu com os olhos uma boa área do caule para poder extraí-la. Mal aproximou a tesoura da planta e sentiu uma picada em sua mão. Pensou ter visto algo passar diante de seus olhos, fino feito uma agulha, mas abandonou a ideia enquanto esfregava a mão.

TUM.
TUM.
TUM.

Uma batida oca e contínua no mato atrás dele chamou sua atenção. Ele se virou e viu a vegetação se abrir para dar espaço a um homem que se aproximava pulando. Sério, o homem encarou o explorador enquanto adentrava a clareira. Era negro, tinha a cabeça raspada e possuía o peito e braços cobertos por tatuagens pintadas em tinta branca. Alguns pulos depois ele estava totalmente visível e o explorador pode ver que na verdade ele só tinha uma das pernas. O espaço vazio na bermuda branca balançava conforme ele pulava.

— Você é um saci?! — exclamou, caindo sentado na mata.

— Saci, sim… Saci-Pererê. O que você estava fazendo?

O explorador piscou várias vezes conforme observava o recém-chegado. Não sabia se o que seus olhos observavam era real ou não. Mal havia processado a pergunta feita pelo outro e tentava imaginar o peso de sua descoberta. O que muitos não dariam por uma foto? Ou melhor, o que não dariam por uma entrevista com ele? Só precisava fazer alguns ajustes como adicionar um cachimbo e um gorro, vermelho, com certeza vermelho! As infinitas possibilidades passavam pela sua cabeça enquanto o outro pulava de leve em volta do espaço. Mal percebeu que seus olhos brilhavam devido ao interesse conforme encarava o saci.

— O que foi humano?

— Vo-você. As lendas, eu ainda não estou acreditando que você é real…

— Tão real e tão inocente quanto você — respondeu com um sorriso discreto.

Olhando mais atentamente para o recém-chegado, viu que em seu pescoço pendia um cordão trançado de cipó com uma pequena zarabatana pendurada como um colar. Seus olhos percorriam das plantas da clareira ao explorador como se examinasse o que realmente estava acontecendo ali.

— O que você estava fazendo?

— Estava colhendo esta planta para estudos. Tudo puramente científico. As… as riquezas que temos aqui podem mudar o mundo.

— Riquezas? O que o seu povo entende como riquezas dificilmente são usadas para mudar alguma coisa.

— Você conhece a nossa sociedade? Nossos costumes?

— As histórias do seu povo são contadas pelo vento assim como as nossas. Vocês estão mais divididos do que nunca, querendo todos os recursos da mãe natureza para si.

— Nem todos são assim. — O explorador levantou-se devagar e falou com mais calma, medindo as palavras — Muitos de nós pesquisam formas de acabar com a fome, dar moradia para as pessoas, erradicar doenças. A Mãe Natureza pode nos ajudar a garantir um futuro melhor para todos.

A expressão do saci era séria, parecia analisar não só as palavras ditas, mas todo o ambiente a sua volta.

— Vocês não têm um histórico muito bom com a Mãe. A expansão do seu povo nunca acaba. Muita história foi perdida nesse caminho. Você agora diz que está pensando no futuro…

— Sim! Pense em quantas vidas podemos salvar se todos nos ajudarmos…

— Me diga, nobre senhor, como as pessoas obtêm medicamentos de onde você vem?

O saci se aproximou da planta roxa e acariciou de leve as pétalas. O explorador encarou o chão diante do olhar do outro e pensou um pouco enquanto andava pela clareira calculando a melhor resposta ali. Algo no olhar do saci lhe disse que não adiantaria florear demais a realidade.

— Elas compram quaisquer remédios que precisem. — Uma das sobrancelhas do saci se arqueou — Mas muitos são dados de graça pelo governo.

— No fim alguém ainda vai lucrar com a natureza.

— Sim, sempre alguém lucra, é assim que a sociedade funciona. As pessoas precisam de algo, alguém fabrica e vende. Onde há procura, há oportunidade.

— Procura e oportunidade? Interessante. O grande problema dessa conta é que sempre tem gente ganhando mais do que os outros. — O saci olhou em volta — e uns não ganhando nada.

— Nós temos muitas coisas que podem ser úteis, inclusive para você. — O explorador pensou ver uma oportunidade ali — joias, colares, cachimbos ou até ouro. Há sempre um jeito de equilibrar mais a balança.

A voz do explorador virara a de um vendedor de frente para um mostruário.

— Pense no quanto a natureza tem a ganhar. — Ele abriu os braços como se expusesse algo natural e apontou em volta enquanto andava. — A nossa tecnologia pode ser usada para criar novas plantas, reproduzir a Mãe Natureza e tornar todos nós…

Sua voz falhou ao ver em um dos cantos um brilho diferente. Abaixou-se devagar e abriu espaço entre as folhas altas para ver mais um espetáculo da natureza: pedras preciosas se espalhavam pelo mato e pelo brilho que ele via nas árvores e formações a sua volta, aquela floresta ainda tinha muito a ser explorado.

— E no final tudo se resume a quem vai ficar mais rico. Vocês nunca mudam.

— O explorador mal prestou atenção na voz frustrada que acompanhava o tum tum tum do saci se aproximando do objeto de atenção dele.

A imagem era de se hipnotizar qualquer um. Árvores de todos os tamanhos possíveis, com plantas e flores das mais diversas cores, muitas espécies raras já em extinção. Muitas exibiam um brilho característico que laboratório nenhum conseguiria reproduzir.

Por um momento até esqueceu do mundo a sua volta enquanto encarava a natureza; o foco ainda era o mesmo, como bem previra o saci, mas a beleza do lugar era algo tão único que merecia ficar eternizado na memória. Esse era o pensamento que passava pela mente do explorador, que mal percebeu o saci se aproximando ou a nova picada, dessa vez em seu pescoço. A paisagem era seu único objeto de atenção e ficou em sua memória, para sempre, após perder os sentidos e desmaiar ali em meio aquele espetáculo natural.

TUM
TUM
TUM


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Diego Vieira. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

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