Conto | Noiva Insana

Por: Camila Servello Aguirre

As pálpebras foram as primeiras partes que ela arrancou. Não houve dor, eu estava sedado. Tudo voltou num borrão e as engrenagens dentro da minha cabeça ora rodavam demais, ora de menos. Eu me esforçava para piscar e poder limpar a visão, mas não havia membrana alguma que cobrisse meus olhos.Uma gota gelada em cada olho e tudo pareceu melhorar. Pude me ver enfim, estirado na cama, como da última vez, nu, refletido no imenso espelho instalado no teto, com uma estrutura presa à cabeceira da mesa. Não sabia o que era, mas não estava ali quando apaguei.

Então, olhei atentamente. A figura que me fitava de volta tinha um vinco na testa, olhos vermelhos. Olhos. Me detive neles. Onde deveria haver cílios, pontos de sutura. Onde deveria haver o par de pálpebras, nada. A pele ao redor estava inchada e arroxeada. Era mesmo eu ali? Queria tocar e confirmar o que negava em pensamento, mas ainda estava amarrado.

Em poucos segundos, meus pensamentos foram cortados pela ardência. Meus olhos eram duas brasas e as lágrimas não eram capazes de apagar aquele incêndio. Os músculos ao redor se contraiam e meu cérebro ordenava freneticamente para que eu piscasse. Eu me sentia forçando e forçando e contraía tudo em minha face, mas as pálpebras que deveriam fazer o trabalho de espalhar as lágrimas não estavam ali para cumprir sua missão.

Eu gritei e me debati com toda força que ainda possuía. Puxava braços e escoiceava. Nem mesmo quando me vi preso lutei tanto quanto aquelas amarras. Tudo inútil. Aos poucos fui vencido. Então arrefeci, porém não deixava de gritar.

— So… oooo…rrrrroooo…

Eu estava fanho? Língua presa? Ou era apenas a mordaça que me impedia de falar?

No desespero que estava, em meio à minha gritaria desenfreada, demorei mais algum tempo para descobrir que mais um pedaço de mim havia sido arrancado. Junto às minhas pálpebras; minha língua. Por mais que articulasse as palavras e mesmo estando sem mordaça, qualquer grito não passava de grunhidos desconexos e sem sentido algum. A cada nova tentativa me frustrava mais, as palavras saiam cada vez mais disformes e, em pouco tempo começava a engasgar com a própria saliva.

Ainda não sei o que me desesperava mais: a ardência nos olhos ou a impossibilidade de pedir por ajuda. Mesmo assim, por mais indignado, frustrado, irado que estivesse, fui obrigado a me resignar diante de tantas tentativas infrutíferas.

Então veio algum alívio. Aquele trambolho todo que havia próximo da minha cabeça, nada mais era que um sistema que pingava soro ou colírio diretamente em meus olhos. Bastava que eu ficasse imóvel e o gelado do líquido apagava minhas brasas oculares. Se a impossibilidade de me soltar ou a inaptidão de me fazer ouvido já me faziam ficar quieto, aquele bálsamo me obrigava definitivamente a ficar na minha.

Tive muito tempo para entender o plano torpe de minha algoz. Minha língua e pálpebras foram removidos com maestria cirúrgica, muito bem feito. No meu braço esquerdo, a veia canulada recebia algumas medicações. Assim como você, me perguntava pra quê tanto cuidado. Imagino que quando se quer torturar alguém, o uso de anestésicos, anti-inflamatórios e antibióticos não tem muito propósito. Mas ela sabia muito bem o que fazia.

Ela me alimentava? Claro que sim. O suficiente para que eu continuasse vivo. Em poucos dias, perdi gordura, massa muscular e outras partes do corpo também.

Ela me mantinha limpo e higienizado? Na medida do possível, sim. Imagino que limpar urina e fezes de um homem amarrado a uma cama não era uma das tarefas mais fáceis. Até que ela se esforçava. Tanto que duas vezes por dia eu era submetido à intensas lavagens que arrancavam meu couro e infelizmente acabavam piorando minhas escaras de decúbito. Essas pequenas feridas não incomodavam, para falar a verdade. O olho sempre era a dor maior. Dor física.

Ainda não conseguia imaginar por quanto sofrimento iria passar. Nunca mexa com uma mulher com extensos conhecimentos de anatomia, cirurgia e anestesia. O que ela tinha para mim ia além da dor física. Agora eu sei, sentado aqui diante desse sintetizador de palavras. Estou me adiantando.

A próxima cirurgia me surpreendeu da pior maneira possível. Numa tarde, ou noite, ou manhã, graças à uma máscara colocada sobre meu rosto, eu apaguei. Desliguei verdadeiramente como não desligava há dias. Tudo ficou escuro, mesmo com os olhos abertos constantemente. Minha consciência foi obrigada a vagar por um limbo de esquecimento. Antes tivesse permanecido lá.

O que me trouxe de volta, mais do que a iluminação forte na minha cara, foi a dor. E não falo dos meus olhos, veja só. Eu pude ver assim que consegui focalizar melhor meu companheiro espelhado. Ainda era eu mesmo me encarando de volta, porém meus dois pés foram substituídos por bandagens. Levantei o máximo que aquelas amarras e cordas me permitiam. Esperava, acreditando com todas as minhas forças, que encontraria meus dois dedões acenando de volta para mim. Eles estavam mexendo. Então por que eles não estavam ali? Era isso que aquela dor queria dizer, agora que eu conseguia pensar com clareza. Bem, não agora, agora. Demorei algumas horas para me refazer do susto. A dor estava ali para denunciar que mais um pedaço foi tirado de mim. Os cortes nas extremidades de minhas canelas pulsavam, latentes, ardendo. O formigamento era desesperador, praticamente uma coceira que não se pode coçar. E, de fato, eu não poderia coçar, pois não havia pé para coçar. Meus pés ausentes mais pareciam dormentes. Eu os mexia e mexia, tentando me livrar das milhares de formigas invisíveis que me picavam. Eles existam apenas nos meus pensamentos. Como é que o cérebro esquece um pedaço da gente que ficou ali durante 35 anos? Não esquece.

Meus músculos se contraiam e o cotoco já não doía tanto. A cicatrização devia ir de vento em poupa, afinal minha médica era muito competente. Claro, o trauma psicológico estava longe de ser curado e era essa angústia que ela queria que eu sofresse. Tanto que mais uma vez ela me colocou para dormir e a dor me trouxe de volta ao mundo para avisar que minhas mãos foram decepadas com a mesma maestria que meus pés. Céus, eu não podia nem mesmo fechar os olhos e chorar. Eu não podia fechar os olhos e ignorar aquela imagem. Minha cara de choro e tristeza me encarava de volta. Eu senti pena de mim mesmo. O homem no espelho não era eu. Magro, com olheiras profundas, braços e pernas que terminavam em bandagens e cara patética de um menino frágil, remelento e ainda deformado pela ausência das pálpebras. Queria correr para qualquer lugar, correr e esconder do mundo a minha vergonha. Mas eu nunca poderia fugir da verdade. Eu era um inútil sem os pés e as mãos. Pela primeira vez, desejei morrer. Isso acontece quando a esperança acaba. Sem esperança de nada, para que continuar a viver? Se um dia você precisou se fazer essa pergunta, meu amigo, o suicídio parecerá a melhor solução.

Desde o primeiro minuto em que me vi naquela enrascada sabia que sairia dali. E mais, já me imaginava sendo resgatado em poucas horas, sem nenhum arranhão. Quando as horas se arrastaram e cavalaria não apareceu, fui obrigado a abandonar o sonho inicial. Eu ainda acreditava que sairia dali, talvez um pouco machucado, torturado, com algumas sequelas, mas vivo. Agora, mutilado, precisando de ajuda até mesmo para limpar a bunda, sabendo que ela não pararia tão cedo, eu queria morrer. Mas, como eu disse, minha médica era muito eficiente. Não houve infecção que pudesse me levar, não houve complicações, minhas feridas cicatrizavam perfeitamente, bem ou mal era alimentado, meus excrementos causavam assaduras, mas era limpo e higienizado com frequência para não piorar. Sim, era degradante e minava cada vez mais minha vontade de viver. Eu queria que ela me matasse. Claro que isso não estava na vontade dela.

Meu lamento aumentava à medida que os meus membros diminuíam. Nem sei quantas cirurgias foram. É fácil perder a conta dormindo e acordando tantas vezes. Toda vez que eu abria os olhos – modo de dizer – um pedaço maior de mim havia sido extirpado. Eu estava sendo fatiado. O cotoco que minhas pernas e braços se tornavam eram encurtados a cada sessão de desligamento anestésico. A gente nunca tem criatividade o suficiente para imaginar o quanto o desespero ainda pode aumentar. Eu era obrigado a ver cada parte de mim ser retirada aos poucos. Mãos, pés, antebraços, pernas, braços, coxas. Cada um amputado aos poucos, à prestação.

Eu me via diminuído, qualquer orgulho e vaidade que um dia já tive, esmorecendo. Eu estava reduzido a um tronco, pescoço e cabeça.

Sei o que você está pensando. Esta tentando imaginar a cena e franzindo o cenho com asco. Não se culpe. Todo mundo tenta não olhar muito quando vê um deficiente na rua, mesmo querendo encarar aquele pedaço que falta, afinal temos educação, não podemos perder em pensamentos fazendo caras e bocas. Isso é algo constrangedor, não? Bem, neste meu caso específico, o deficiente era eu e o observador também, então não haveria problema, certo? A verdade era que o meu olhar refletido no espelho machucava mais do que o olhar piedoso de um estranho teria machucado. Eu tinha pena de mim, mas também tinha raiva, nojo, repulsa. Eu era um peso morto que dependeria da boa vontade dos outros para viver, tendo que pedir que assoassem meu nariz, coçassem minha orelha, lubrificassem meu olho. Alguém com paralisia cerebral podia se virar melhor do que eu.

Nunca fui um homem de fé, mas quando acordei sem o ultimo pedacinho do meu braço direito, comecei a rezar fervorosamente. Em minhas orações pedia que ela não tivesse criatividade para arrancar mais nada além do meu coração. Seria o fim, e eu torcia muito por isso. O problema é que ela tinha.

Os dias haviam se arrastado de uma maneira bem enfadonha, você já deve imaginar. Não sei se alguém teria se resignado a viver assim. Eu ainda achava mais vantajoso morrer. Talvez quando estiver cara a cara com a morte eu mude de ideia, mas, por enquanto, só respirar não era o suficiente para mim. Cada vez menos acreditava estar a salvo de qualquer outro malefício que aquela noiva insana iria me causar. Tantos dias de calmaria poderiam ter me feito relaxar, talvez, baixar a guarda. Bem, do jeito que eu estava não dava para relaxar muito, no entanto, nem tinha uma guarda tão armada assim. O fato é que fui colocado para dormir mais uma vez.

Mais do que a dor, desta vez, minha volta à consciência se deu de uma maneira muito mais confusa. Alguma coisa havia mudado em minha percepção do mundo ao redor. Antes de te dizer como foi, deixe-me lhe contar um pouco sobre a minha prisão.

Quando fui capturado acabei amarrado em uma cama antiga de metal. Sei disso por que ela rangia a cada vez que me mexia, mesmo que milimetricamente. Mas o colchão era até confortável, talvez, seminovo e não deveria ter a idade da cama. O cheiro sempre foi agradável, de lençol novo e a cabeceira enferrujada estava quase totalmente coberta por uma tinta branca, aparentemente passada às pressas. Sobre mim, preso no teto baixo e cheio de marcas estava um espelho de corpo inteiro. Na verdade, acho que estava mais para um daqueles espelhos grandes de cômoda antiga que foi colocado no sentido errado, mas de maneira que pudesse ver meu corpo inteiro. Servia bem ao propósito. A sala até que era grande e não deveria ter uma iluminação das mais adequadas, já que a luz provinha de diversos tripés, daqueles que os fotógrafos usam. Pelo reflexo via um pouco do chão; era vermelho bem escuro, mas não entendia bem se era algum tipo de taco ou azulejo, mas também deveria ser bem velho. Alguma tia-avó minha deveria ter algo parecido na casa dela. Enfim, esse também era limpo ao menos uma vez ao dia e, por mais produto de limpeza que ela passasse, ele não clareava – e olha que ela passava muito, chegava a arder o nariz. Não havia muitos moveis e o pouco que havia ficava amontoado a um canto, coberto por lençóis brancos. Deveria ser quinquilharia, dessas que ninguém quer. Bem, nunca vi ela se interessar por tudo aquilo. Não havia muito mais que pudesse chamar a minha atenção. Passava minhas horas de tédio prestando atenção aos sons que vinham dos outros cômodos. Não dava para ouvir muito. Às vezes, era passos no andar de cima, alguma melodia que me chegava pelo vão da porta, vozes abafadas, talvez de uma TV. Penso ter ouvido, certa vez, o barulho de chuva.

Tudo isso para dizer que, quando voltei a mim, logo senti que alguma coisa estava errada. Mais alguma coisa, não é? Uma dor insuportável me atingia na cabeça, mas o que mais me desesperava é que percebi que os sons chegavam até mim de uma maneira abafada. Eu precisava me concentrar muito mais para conseguir captar alguma coisa, como se minha cabeça estivesse mergulhada numa piscina. Eu não estava entendendo nada. Tentava olhar para os lados procurando alguma explicação. Meu olhar percorria aquele reflexo initerruptamente de cima a baixo, de cabo a rabo. Jogo dos sete erros. O que estava faltando? A pequena mancha de sangue em meu travesseiro me deu a dica. Como eu não havia dado falta disso antes? Eu não tinha orelhas. Sim, eu ainda tinha ouvidos, pois ouvia, mas não possuía mais a capacidade de captar os sons. Será que dava para ser mais imprestável? Por experiência própria, vou te dizer que sim.

Depois das orelhas, ela ainda foi capaz de tirar o meu nariz. Meu rosto deprimente, com dois olhos esbugalhados sem o contorno das pálpebras ganhou de adorno um buraco escuro, com duas laterais vermelhas, separado por um septo, cuja função era a entrada e saída de ar. Até que combinou com as orelhas, assim meu visual de caveira assustaria muita gente.

Não dá para se conformar com isso. Simplesmente não dá. Eu nunca mais sentiria, ouviria, veria, cheiraria e degustaria o mundo de outra maneira. Jamais sentiria os mínimos prazeres da vida. Eu era nada. Consciência, a única coisa que me restava e não fazia questão alguma de ter e, aparentemente, a única parte de mim que ela mantinha intocada. Mesmo assim, era o ponto que mais me corroía. Desejava não existir mais e não poder dar cabo da própria vida era de enlouquecer. O problema foi justamente não ter enlouquecido. E também a capacidade dela em fuder ainda mais com a situação.

Foi a ultima vez que ela me colocou para dormir e, honestamente, nem me lembro de como foi que aconteceu. A volta da anestesia foi como sempre, lenta, gradual e pontuada por algum incomodo. Mas eu logo vi o que estava faltando. Vi rápido tão logo foquei em meu reflexo. Não dava para ignorar. Céus, como eu desejei que fosse um sonho, mesmo que fosse o pior pesadelo da minha vida. Ela aplicou seu golpe final. Se ainda era possível acabar comigo, ela o fez de forma magistral, deixando o melhor para o final. Aquela mulher vingativa destruiu meu ultimo brio, minha masculinidade, minha virilidade. Naquele dia ou noite, eu acordei sem meus testículos e pênis. Uma sonda saída de um orifício não natural que parecia ser minha nova uretra. Agora sim, eu estava acabado e nem imaginava que as coisas ainda iriam piorar.

Não ouvi muito bem ela chegando. Só percebi que ela estava ao meu lado. Pela primeira vez, eu me detive para verdadeiramente fitá-la. Ela não era a mulher forte e cheia de si que habitava meus pensamentos. Tudo que ela me fez em todo aquele tempo, fez com que eu pintasse de uma maneira cruel, atrapalhando meu entendimento da verdade. Era uma fudida como eu. Olhos fundos e permeados por olheiras denunciavam que ela também quase não dormia. Os ossos da face também estavam aparentes; ela não comia. Como eu, ela também era apenas uma sombra do que já foi. Seus olhos, esses sim eram insanos, com um brilho assustador, como se pudesse ver a minha alma. De tudo que eu passei, encarar aquele olhar era a coisa mais desesperadora que já tive que passar. Era como ser confrontado com seus defeitos, seus erros, seus crimes. Naquele olhar eu via o pior de mim. Minha alma estava despida. Eu sabia e não queria admitir. Não até aquele momento. Mas eu sempre soube em meu âmago que era o principal responsável por aquilo. Eu fiz dela aquele monstro quando destruí seu sonho e lhe dei uma rasteira. Não só ela, mas causei sofrimento a outras mulheres também. Eu merecia pagar, mesmo que a juíza e executora fosse aquela mulher transtornada que não quis esperar pela justiça. Convenhamos, também, pela justiça desse país, eu estava me dando muito bem, uma hora alguém perderia a paciência.

Minha pobre torturadora trazia um prato. Eu estava com muita fome e aquele cozido tinha uma cara muito boa e, mesmo sem olfato, já imaginava que o cheiro era agradável. Quando ela levou um pedaço de carne com consistência macia à minha boca e fez com que eu desse a primeira mordida, eu quis vomitar. Não sentia gosto, mas de repente soube o que era sem que ela precisasse anunciar. Ela estava dando de comer as minhas próprias bolas. Travei os dentes, incapaz de continuar mastigando, muito menos engolir. Ela forçou uma nova garfada e eu me arrepiava inteiro a cada batida de garfo. A cena deveria parecer uma mãe tentando dar algum legume ao filho birrento. Que fosse, mas eu não lhe daria essa satisfação.

Depois de algumas tentativas ela deixou o prato ao meu lado e saiu. Havia feito meu primeiro ponto, mesmo que o placar ainda marcasse 7 a 1, para ela. Cuspi o resto que ainda estava em minha boca. A ânsia vinha em fortes espasmos, mas meu estômago guerreiro manteve em seu interior o que fui obrigado a engolir. Mesmo assim, suspirei um pouco aliviado. Precisava curtir aquela pequena vitória. Claro que minha alegria duraria pouco.

Ela voltou e só vi o martelo quando veio de encontro aos meus dentes. Num único segundo gritei e senti o sangue preenchendo a minha boca. Meus dentes se despedaçaram, como uma vidraça. Deixando a ferramenta de lado, ela apertou as minhas bochechas, cravando a unha. Minha boca inteira doía, estava quase engasgando com meu próprio sangue e o apertão dela fez com que eu arrefecesse. A garfada veio seguida de outra e de outra. Eu lutava, mas em pouco tempo estava com a boca cheia.

— Mastiga e engole, antes que você engasgue. Se engasgar vou ter que abrir um buraco na sua garganta e é por lá que você vai respirar pelo resto da vida.

Chora menos quem pode mais. Ela continuava socando e socando. Eu morreria engasgado com meu próprio testículo. Bem, ela não me deixaria morrer e de brinde me daria um novo orifício para respirar. Fiz a coisa mais lógica que me restava fazer; mastiguei e engoli. A cada mordida eu sentia aquela carne friável se desfazer entre o que sobrou dos meus dentes. Minha coluna inteira era percorrida por uma eletricidade que arrepiava os pelos da nuca. Sem língua me livrava do gosto, mas meu cérebro imaginava sêmen e sangue além do ácido que voltava do estômago. Eu engolia aquele bolo alimentar embebido em meu soluço. Eu era um imprestável até mesmo para chorar.

Quando o prato acabou e eu devidamente engoli o último pedaço, ela foi embora, me deixando com meus pensamentos. E eu chorei. Chorei da forma que dava; copiosamente. Chorei pela minha situação e mais ainda por sua irremediabilidade. Eu era um paciente terminal sem chance de luta, mas também sem prazo de validade. Eu não morreria em poucas semanas ou meses. Levaria anos naquela condição decrépita. A mim foi vetada a chance de lutar ou de desistir. Eu era aquilo e mais nada.

Ela voltou horas depois, ou dias, tanto faz, para o nosso momento derradeiro. Eu ainda tinha mais uma humilhação para passar. Ela soltou as fitas que me prendiam e você já deve imaginar que isto não fez a menor diferença. Sem pernas para correr e sem braços para acabar com ela, me restava a completa inanição. E não ache que eu não pensei em tentar alguma coisa, como umas mordidas, mas o meu alcance e dentes quebrados não causariam muito estrago. Sendo sincero, já não tinha vontade alguma de tentar nada. Saber que o resultado seria o insucesso já minava qualquer vontade de tentar.

Ela me virou com aquela delicadeza de quem está pouco se lixando. Eu dei um grito e até hoje não sei por que o fiz. Tive que fazer um esforço sobre-humano para conseguir virar a cabeça para que minhas fossas nasais pudessem encontrar um pouco de ar. Uma coisa que não contei sobre ela é que ela não é de falar muito ou revelar seus planos. Me surpreendi quando ouvi sua voz bem próxima de onde deveria estar minha orelha.

— Você fudeu com muita gente. Agora eu vou garantir que você se foda.

Mais? Só conseguia pensar que não dava para ser pior. Mas desde o começo ela me mostrava que tudo sempre poderia ser pior. Eu tive certeza disso quando senti a mão fria dela sobre minha bunda. Foi uma invasão e senti cada prega do meu ânus ser estourada várias vezes, cada vez que ela tentava enfiar o que quer que fosse. Meus olhos se arregalavam a cada investida e não demorou muito até que começassem a arder. Lá embaixo ardia também. Sentia vontade de ir ao banheiro e forçava tentando empurrar para fora de mim o que ela forçava para enfiar. Foi um tempo longo de agonia e poderia apostar que ela se exasperava e xingava por não conseguir. Era confortante saber que eu a frustrava de alguma maneira. Ela não desistiu e eu não fui capaz de impedir que ela concluísse seu ultimo feito. Eu gritei mais uma vez com toda força sentindo algo se rompendo dentro de mim. Depois disso, eu apaguei.

Fui resgatado 43 dias depois que o meu sequestro se iniciou, desidratado, subnutrido, sem braços, pernas, orelhas, pálpebras, língua e órgãos genitais. Minhas córneas eram duas ulceras depois de terem ficado horas sem lubrificação. Boa parte dos meus dentes estava quebrada e minha boca estava inflamada. Do meu ânus retiraram meu próprio pênis decepado que, com o auxilio de duas varetas de madeira, foi introduzido lá, causando a ruptura do meu reto. Passei quase o mesmo tempo no hospital tendo passado por cirurgias para tentar recuperar meus olhos e para controle de uma infecção abdominal e necrose final do intestino que quase custaram a minha vida. Claro que Deus não seria tão bom comigo. Hoje tenho apenas 10% da visão e defeco por uma bolsa ligada ao meu intestino grosso. Tenho quase certeza de que isso fede horrores, mas não possuo olfato para saber.

Minha carcereira, após me estuprar daquela maneira, tomou uma dose de whisky, ligou para a polícia denunciando meu cativeiro, depois se deu um tiro. Ela se livrou de qualquer punição. As investigações mostraram que ela agiu sozinha, sem que a família ou noivo soubessem. Honestamente, não estou muito preocupado em culpar alguém. Isso não trará minha vida de volta.

Hoje passo o meu dia jogado numa cama, às vezes numa poltrona, sendo assistido 24 horas por dia. Preciso da ajuda das pessoas até para assoar o… bem, modo de dizer. Os médicos estudam uma maneira de minimizar minhas deficiências para que eu tenha alguma qualidade de vida. Eu só quero saber se algum dia eu poderei dar cabo dessa merda de existência. Também recebo apoio psicológico que nem sempre me esforço a ouvir. Ao menos passo algumas horas do dia seguindo o conselho da minha psicóloga e me distraindo com um novo hobby. Escrevo minha história através de um sintetizador de voz ligado a um computador.

Foi isso que eu ganhei com o meu crime de estelionato ao fechar meu Buffet e levar o dinheiro de algumas dúzias de noivas. Só não contava que uma delas fosse médica e vingativa. Ela deu um jeito de me fazer pagar por isso pelo resto da vida. Palmas e mais palmas para ela – bem, outro modo de dizer.


Card alaranjado com a foto e a mini bio da escritora Camila Aguirre. A foto dela está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio da escritora.

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