Entrevista | Dame Blanche

Por: Adele Lazarin

Ser escritor no Brasil não é fácil. Ser editor, menos ainda. Mesmo assim, trabalhar em uma editora é um dos trabalhos mais almejados por milhares de leitores espalhados pelo país. Afinal, nada melhor do que unir paixão e emprego dos sonhos, não é mesmo? Considerando a crise em que o mercado editorial está inserido hoje, muitos empreendedores enxergam o momento como uma oportunidade de começar algo novo e abrir a própria editora independente.

Foi o caso da Dame Blanche, editora fundada por Anna Fagundes Martino* e Clara Madrigano, com o apoio do fofíssimo mascote River (conhecido também como o cachorro estagiário responsável por comer manuscritos e aquecer os pés das pessoas em dias frios). A Dame Blanche nasceu do mesmo amor que une todos nós do Conte Histórias: a literatura. Antes de editoras dedicadas, Anna e Clara são leitoras, e sabem muito bem o que desejam encontrar nas estantes das livrarias (virtuais e físicas).

Com dois livros já lançados, as duas empreendedoras agora se preparam para trazer novidades ao mercado literário, não se esquecendo nunca do quão importante é o papel do leitor nesse processo. Leia abaixo nossa entrevista com Anna e Clara, onde elas falam sobre a Dame Blanche, o mercado nacional, os desafios de uma editora independente e o que elas esperam do futuro.

Anna Fagundes Martino e Clara Madrigano, editoras da Dame Blanche.

Conte Histórias: Podem nos contar um pouco sobre sua história? Como vocês se conheceram? O que as motivou a abrir uma editora independente? Por que o nome Dame Blanche? Desde quando a editora existe?

Dame Blanche: Nós nos conhecemos em 2001, da maneira menos glamourosa possível: em um fórum de discussão sobre Harry Potter. Gosto pela leitura, paisagens estranhas e cachorros nos uniu. A editora surgiu após uma discussão sobre livros que queríamos ler, mas que ninguém publicava. Já que havia público, por que não trazer esses textos para fora? Isso foi no primeiro semestre de 2016.

Dame Blanche é uma lenda francesa, citada na série Outlander (da qual somos fãs). Também é o nome de uma sobremesa e de um grupo belga de resistência ao nazismo na Segunda Guerra Mundial (assunto que eu, Anna, estudo há alguns anos). Não sei como chegamos ao nome, mas ele acabou ficando!

CH: Por que vocês decidiram trabalhar com ficção especulativa?

DB: Porque é uma área que as duas adoram e que é pouco explorada. Queremos vozes novas e precisamos fugir dos estereótipos. Sabe aquele ditado “Seja a mudança que você quer ser no mundo”? Botamos em prática.

CH: Como vocês enxergam o mercado editorial brasileiro hoje? Vocês pretendem trazer alguma novidade para o setor?

DB: Dizer que o mercado editorial está em crise é como dizer que o Papa é católico. Quanto a isso, nada a fazer: é um problema estrutural que tem diversas causas, nenhuma delas solucionável a curto prazo. A nossa novidade é tratar a ficção especulativa e narrativas curtas. Porque somos uma editora pequena, nós duas podemos dar atenção total a cada projeto em que apostamos.

CH: Quais foram os desafios e as dificuldades encontrados por vocês na hora de abrir a Dame Blanche? E hoje?

DB: A principal dificuldade, antes e agora, é encontrar o equilíbrio entre um bom texto, boa apresentação (capa, diagramação, revisão), bom preço e boa distribuição. Focamos no mercado eletrônico, em detrimento do impresso, justamente para podermos honrar o compromisso que nos propusemos: dar ao leitor algo novo e bem trabalhado.

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CH: Como tem sido a recepção do mercado? E dos leitores?

DB: Até aqui, sem queixas! Os leitores abraçaram nossa ideia de tal maneira que foi até um pouco assustador. Digo que fomos procurar nossa turma e ficamos surpresas de que a “turma” era bem maior do que o imaginado.

CH: Quais são os livros lançados por vocês? Eles existem em mídia física e digital?

DB: Até agora, temos dois livros no catálogo, ambos em mídia digital: A Casa de Vidro, uma fantasia botânica, e Lobo de Rua, uma história de terror situada em São Paulo. Temos mais dois lançamentos programados para o primeiro semestre de 2017.

CH: Como vocês enxergam esse crescimento de autores e editoras independentes?

DB: Com bons olhos. Estamos explorando novas formas de chegar aos leitores. Ninguém escreve para deixar guardado na gaveta, afinal. A internet facilita nesse sentido, porque permite que encontremos um público que estava sendo ignorado ou subaproveitado pelas editoras maiores.

CH: O Daniel Lameira, da Intrínseca, fala que o relacionamento entre editora e leitor é muito importante e que, hoje em dia, é essencial para a consolidação de uma empresa no mercado. Como vocês enxergam esse relacionamento? E como vocês se relacionam com seus leitores?

DB: Nossos leitores são, acima de tudo, nossos companheiros de jornada. Como disse, é a questão do “ir procurar sua turma”. Somos, antes de editoras, leitoras compulsivas, fanáticas mesmo – e queremos andar na companhia de gente que entende que um livro na bolsa ou na mochila constitui “contingência para todo tipo de emergência”, por exemplo. Temos o compromisso de responder todas as mensagens que recebemos na nossa página, sempre estamos checando os blogueiros, agradecemos imensamente quem avalia nossos livros no Good Reads e no Skoob. É uma política de boa vizinhança: vocês querem histórias, nós também, vamos juntos.

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CH: Qual é a parte do trabalho editorial que vocês mais gostam? E a que vocês acham mais difícil?

DB: Ler um manuscrito pela primeira vez e ver algo novo e fantástico é o motivo pelo qual nove entre dez editores escolhem a profissão. Ver como todos os detalhes da produção se unem – uma capa, uma revisão, a escolha de diagramação – é a coisa que mais nos anima.

Por outro lado, ter que dizer “não” para um texto é difícil. Só um autor entende como dói no ego precisar recusar um manuscrito, seja por qual motivo for.

CH: Vocês também escrevem?

Anna: Mais do que seria considerável aceitável. Meu último trabalho saiu na Trasgo.  Além de autora de ficção, sou jornalista há 16 anos. Algumas pessoas diriam que também é trabalho de ficção, mas é só intriga dos oposicionistas.

Clara: A gente escreve até não ter mais dedos. Faço uma compilação dos meus textos publicados lá no meu site.

CH: Quais são seus livros preferidos?

Anna: 1984 (George Orwell) e O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë) são minhas Bíblias, os livros que eu levaria para a ilha deserta sem medo de me enjoar.

Clara: A História Secreta (Donna Tartt), A Mulher do Viajante no Tempo (Audrey Niffenegger), Duna (Frank Herbert), ih, a lista não acaba (mentira, acaba, mas demora para chegar lá).

CH: O que vocês esperam do futuro? E o que planejam para 2017?

DB: Temos dois lançamentos planejados para o primeiro semestre de 2017 (mais informações sobre isso a qualquer momento, ou nas páginas da Dame Blanche no Facebook, Instagram e Twitter). Até poderia contar mais coisas, mas… Sabe como é. Efeito surpresa e tal.

Quanto ao futuro, seja lá o que vier, estamos nos preparando na medida do possível. A ideia é encher o mundo com mais histórias. Vamos a elas.

*A Anna também participa do projeto Minas Que Escrevem.

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