Artigo | Aquele 1% de inspiração3 min de leitura

Quando um livro de ficção chega às mãos do leitor, uma pergunta costuma ser inerente à história: de onde surgiu essa ideia? Sem dúvida, uma obra de ficção evoca questões que fogem de simples regras gramaticais ou referências bibliográficas. Existe algo invisível, nascido da imaginação de alguém, e, quanto mais criativo e envolvente, mais cativante se torna aos olhos do público. No entanto, a maioria das pessoas não sabe que esse mesmo texto permeado de inspiração segue uma estrutura muito bem pensada e definida na qual pouca coisa nasce do mero improviso.

O primeiro mito que cai por terra quando se escreve é o da inspiração. Embora a ideia inicial normalmente nasça de um “estalo”, o restante está mais ligado à transpiração. Afinal, seria bastante ingênuo pensar que um escritor se senta todos os dias, de frente para o computador, esperando que a musa inspiradora sopre odisseias em seu ouvido. Ele precisa estar preparado, sabendo, de antemão, o que irá colocar na tela.

O que obras de sucesso como Harry Potter, Jogos Vorazes e Matrix têm em comum? Apesar de se originarem de premissas distintas, todas seguiram, quase à risca, a fórmula narrativa conhecida como jornada do herói ou monomito, conceito defendido pelo antropólogo Joseph Campbell em seu clássico O Herói de Mil Faces e que se tornou a base para infindáveis histórias amadas pelo público.

Obviamente, nem todos os escritores adotam o mesmo sistema de estruturação antes de colocar a mão na massa. Trata-se de uma decisão individual e não há nenhum problema nisso. Stephen King talvez seja o exemplo mais famoso de autor que se deixa levar pela história. É o chamado “escritor jardineiro”, alguém que planta uma ideia no fértil terreno da imaginação e vai construindo a história à medida que escreve.

Em seu livro Sobre a Escrita, King descreve o nascimento de cada ideia para um romance como o descobrimento de um fóssil. O autor encontra a localização de um único ossinho e começa a escavar até encontrar todo o esqueleto do dinossauro. Sendo assim, a extensão da obra e os caminhos a serem percorridos pelos personagens até o final são descobertos durante o processo de escrita. Não há como negar que isso também é um processo de estruturação, apesar de estar sendo realizado durante o ato de escrita.

Por sua vez, J.K. Rowling é o caso típico de autora que preza a estruturação. Quem acompanhou as aventuras de Harry Potter dentro de seu universo mágico provavelmente percebeu sua complexidade. São tantos detalhes e interligações sobre um pano de fundo tão consistente que seria impossível para Rowling escrever a série sem uma estrutura como a que vemos na imagem abaixo que ilustra o cronograma de Harry Potter e a Ordem da Fênix.

Esquema feito pela escritora J.K. Rowling para o livro 'Harry Potter e a Ordem da Fênix'.

A criatividade e o conhecimento da autora britânica estão em cada linha que ela escreve, assim como um nítido grau de organização. Um tipo de organização que normalmente se materializa na forma de fichas de personagens, outline e muita, muita pesquisa de embasamento. Nesse contexto, mesmo quando lemos diálogos aparentemente simples como “você é um bruxo, Harry” temos a convicção de que nada está ali por acaso.

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Michel Costa

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura para trazer à tona histórias fantásticas que ficaram aprisionadas em algum lugar do passado.
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