Resenha | Car Wars3 min de leitura

Car Wars é um magnífico conto de ficção científica produzido pelo escritor e jornalista canadense Cory Doctorow, encomendado pela Melbourne’s Deakin University. A Universidade pediu ao autor que escrevesse um conto sobre o complicado processo de desenvolvimento e regulamentação dos carros autônomos, inspirado pelo ensaio The problem with self-driving cars: who controls the code? (O problema dos carros autônomos: quem controla o código?), também escrito por ele.

Cory Doctorow é um escritor engenhoso, o que fica evidente já no seu primeiro romance Down and Out in the Magic Kingdom, que na maior parte se passa na Walt Disney World do século 22, numa sociedade de abundância que superou a burocracia e indivíduos imortais aumentados por implantes tecnológicos. O livro foi lançado em 2003 e nomeado ao Nebula Award no mesmo ano, e foi vencedor do Locus Award na categoria Best First Novel em 2004. Seu livro Little Brother (Pequeno Irmão) foi lançado no Brasil pela Editora Record.

Car Wars possui uma estrutura interessante e variada. Pensado para as mídias digitais, seu texto é dividido em oito capítulos, apresentados em diferentes formatos.

O primeiro capítulo é composto por um comunicado oficial da diretoria de uma escola, anunciando um rígido programa de inspeções nos veículos dos alunos com o objetivo de identificar possíveis adulterações no firmware (software embarcado que controla os veículos) que podem colocar em risco a vida dos estudantes.

O segundo capítulo é composto por uma sequência de tweets de um homem desesperado busca ajuda enquanto está preso em um veículo que trafega em alta velocidade. O veículo não responde aos comandos rotineiros e não dá sinal de que vá parar até que as baterias se esgotem.

Os demais capítulos apresentam narrativas que alternam entre a primeira e terceira pessoas. Cada capítulo funciona como uma vinheta, ilustrando uma situação em um mundo onde carros autônomos são a regra, e o motorista não tem mais o controle sobre o seu veículo.

Outro ponto que merece destaque é que ao final de alguns capítulos, o leitor se depara com perguntas de um questionário sobre o tema que está lendo. Ao responder cada uma das perguntas, o leitor pode ver os resultados da pesquisa até o momento, indicadores da opinião pública, além da opinião de um especialista da área sobre aquele tema. O objetivo é fomentar a discussão acerca dos difíceis problemas de governos e fabricantes serem capazes de controlar os dispositivos dos quais dependemos.

Doctorow faz um trabalho soberbo em expor de maneira clara as dificuldades técnicas e morais que envolvem a regulamentação dos carros autônomos. O público é convidado a repensar sua visão sobre eles.

O autor ressalta de maneira muito clara que os algoritmos de aprendizado de máquina, utilizados amplamente para treinar máquinas a partir de uma massa de dados, são, na sua essência, indeterminísticos. O que implica que é impossível prever com precisão qual será o comportamento de um veículo autônomo em todo tipo de situação.

O conto nos lembra que sempre haverão variáveis imprevistas no trânsito, e que um carro autônomo precisa, inevitavelmente, tomar decisões morais a fim de escolher seu curso de ação. Principalmente quando essas decisões envolverem vidas humanas.

Se os algoritmos não estiverem preparados para lidar com essas situações, apresentarão riscos por inação. Mas, se estiverem preparados, significa que essas decisões já foram tomadas. Que alguém decidiu o que vale mais. Duas crianças, ou três adultos?

Cory Doctorow apresenta com maestria questões extremamente difíceis e que, aos poucos, já começam a fazer parte do nosso futuro. Car Wars é um conto incrível, digno do seu tempo.

O conto está disponível também em áudio, numa produção caprichada, com efeitos sonoros que realçam a história. O texto completo (em inglês), assim como a versão em áudio, podem ser encontrados aqui.

Dyego Maas

Catarinense nascido um ano antes do lançamento do telescópio espacial Hubble, trabalha com desenvolvimento de software há oito anos em Blumenau. Leitor ávido de ficção científica e fã do terror cósmico lovecraftiano, adora ouvir audiobooks durante as peregrinações diárias para o trabalho. Jogador de videogame, aprecia jogos indie com sutilezas estéticas e foco narrativo. Num momento de loucura, vislumbrou uma realidade alternativa onde seu ganha pão vinha não de programas de computador, mas de histórias, e já que não pode viajar para aquela realidade, decidiu mudar a própria.

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