Conto | Meu pesadelo de Natal7 min de leitura

Tive minha primeira decepção com o Natal aos oito anos.

Fazia muito calor, como sempre faz nessa época do ano. Entediado, me larguei no chão da cozinha e fiquei deitado no piso gelado. Sem força para sequer levantar o braço e enxugar a testa, continuei sofrendo imóvel com o suor escorrendo pelo meu rosto.

Ouvi a chave girar na fechadura da porta da sala e o salto alto da minha mãe entrar correndo em casa. Em poucos segundos, vi dois pés calçando sapatos vermelhos aparecerem em meu campo de visão limitado, pararem por um momento e sumirem de novo. Então senti um cutucão forte nas costas e resmunguei baixinho em protesto.

— Levanta daí, garoto! Trouxe uma surpresa pra você!

Apenas continuei grunhindo.

— Anda, garoto! É comida.

Possuído por uma força inexplicável ao ouvir a palavra “comida”, levantei com um pulo e um sorriso gigante no rosto. Minha mãe colocou um embrulho na mesa e começou a abri-lo. Minha boca salivou quando vi o que parecia ser um pão gigante.

— Isso aqui se chama panetone — disse ela cortando um pedaço. — É uma das melhores coisas do Natal. Comprei esse aqui só pra você.

— Me dá! Me dá! — Minha mão rechonchuda pegou com avidez o pedaço colorido de panetone e o levou de uma vez à minha boca. Comecei a mastigar, até perceber que algo não estava certo. Parei antes de engolir e entendi qual era o problema. O panetone era horrível. Cuspi o pedaço todo no chão.

— Eca!

Olhei para a minha mãe e vi que ela me fulminava com o olhar, a mão segurando perigosamente a faca com que cortara o panetone. Comecei a suar de novo, mas dessa vez não era por causa do calor.

Enfiei o pedaço que havia cuspido na boca de novo e corri para o resto do panetone em cima da mesa. Sem pensar duas vezes, apanhei mais um punhado com a mão e fui comendo o mais rápido que podia, sofrendo em silêncio. Nunca pensei que fosse encontrar uma comida que me fizesse tão infeliz.

***

Tive minha segunda decepção com o Natal aos nove anos.

Minha avó havia preparado uma ceia deliciosa para toda a família. Traumatizado com o ano anterior, procurei evitar qualquer um que estivesse comendo panetone. Minha fama de antissocial entre os parentes começou aí.

No final da noite, nos reunimos em torno da árvore de Natal para fazer o amigo secreto. Na minha família, fazemos uma brincadeira diferente. Em vez de cada um sortear um nome, tiramos um número na hora de entregar os presentes. O número 1 pode escolher qualquer um dos embrulhos em cima da mesa. O número 2, então, pode tirar um dos presentes da mesa e escolher ficar com ele ou trocar com o número 1. E assim por diante.

Peguei meu número e me sentei longe de qualquer vestígio de panetone, no fundo da sala. Assim que desdobrei o papel, não pude conter meu sorriso. Eu era o número 32, ou seja, o último a escolher o presente. Eu poderia pegar o que eu quisesse! Que maravilha! Olhei para a minha família ao redor e ri baixinho. Eu tinha o poder de mudar a vontade de todo mundo ali. Eu era o mais poderoso naquela noite.

Ao longo da brincadeira, fiquei de olho em todos os presentes até encontrar algo que eu realmente quisesse. Então, pouco antes da minha vez, meu primo pegou uma caixa de trufas. É claro que ele nem pensou em trocar. Eu não trocaria. Finalmente havia encontrado o meu alvo.

Esperei silenciosamente até minha vez, mas quando chamaram meu número não consegui me conter. Pulei em direção à mesa onde estava o último presente, abri o embrulho e sorri para o par de meias listradas na minha mão. Caminhei languidamente para o meu primo e troquei a infeliz peça de roupa pelas trufas.

— Acho que essas meias combinam mais com você, primo. — Minha alegria com as trufas havia superado o meu senso de cretinice e meu primo me lançou um olhar de puro ódio.

— Não tão rápido, sobrinho! — Meu tio me gritou do outro lado da sala. — Acho que você se esqueceu de uma coisa. — Ele se aproximou de mim, balançou um papel com o número dele em frente aos meus olhos e abriu um sorriso cheio de dentes amarelados. O bafo forte de álcool ricocheteou em meu rosto e cambaleei para o lado. — Eu sou o número 1, garoto. Eu! Eu começo e termino essa brincadeira. — Ele jogou o papel em cima de mim. — Agora me dá essas trufas logo. Toma! Acho que esse panetone é mais a sua cara.

Atordoado pelo cheiro do álcool, mal me dei conta que tinha em minhas mãos um panetone tamanho família até ver meu tio entregar meu precioso presente para o próprio filho. Ou seja, justamente aquele primo que havia pegado as trufas em primeiro lugar. Ele abriu a caixa e colocou três bombons na boca de uma vez, enquanto me dava “tchauzinho” com as meias.

— Melhor ainda, né ,filho? — Disse minha mãe ao meu lado. — Vocês tinham que ver, ele comeu um panetone sozinho no ano passado em menos de cinco minutos. É a comida preferida dele no Natal.

Meus olhos se encheram d’água e sofri em silêncio mais uma vez pensando em como a vida é efêmera. Especialmente quando se trata de chocolate.

***

Aos dez anos, fui passar o Natal na casa da família do meu padrasto pela primeira vez. A mãe dele ainda não me conhecia e me recebeu cheia de beijos e uma caixa grande, colorida e quadrada. Meu estômago afundou assim que eu vi o presente.

— Ouvi dizer que você é muito fã de panetone, rapazinho!

Eu fiquei parado com a caixa nas mãos olhando para ela. Não consegui nem dizer um mísero obrigado. Será que essa seria a minha sina natalina para o resto da vida? Fiz força para não chorar.

— Olha só, ele tá tão emocionado que ficou até sem palavras. Deixa eu abrir aqui, garoto. — Minha mãe pegou o panetone de minhas mãos trêmulas e abriu a caixa sem cerimônias.

Mas ela parou assim que se abaixou para cortar o primeiro pedaço. Ela encarou por um momento aquela comida que se tornou o símbolo de meus sonhos frustrados com uma ruga entre os olhos. Depois, ela se virou para a mãe do meu padrasto, que sorria orgulhosa do presente. Sem falar nada, minha mãe apenas sorriu de volta e tornou a cortar o panetone.

Ao se aproximar para entregar meu pedaço, ela se abaixou e sussurrou em meu ouvido sem que ninguém percebesse:

— Filho, a dona Lúcia tá ficando cega e às vezes compra as coisas erradas. Eu sei que você adora panetone, mas finge adorar isso aqui também, por favor.

Então ela me entregou o meu primeiro pedaço de chocotone, a maior maravilha do Natal. Eu respirei fundo, me segurando para não mergulhar de uma vez naquela explosão de chocolate, e respondi:

— Não se preocupe, mamãe. Pode deixar que eu como isso aqui tudinho.

Acho que ela nunca ficou tão orgulhosa de mim. E eu tão feliz. Finalmente meus sonhos delirantes de Natal haviam se concretizado. Mal podia esperar pelos próximos anos.

***

Tive minha terceira decepção com o Natal aos 11 anos.

A sogra da minha mãe comprou uns óculos e voltei a receber panetones de presente.

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Adele Lazarin

Goiana do pé rachado e carioca de coração, Adele é jornalista, tem especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing e já escreveu para alguns sites de cultura, como Cinema Com Rapadura e A Gambiarra. É fluente em inglês e italiano, pratica taekwondo e é apaixonada por literatura e cinema. Tem como hobby viajar, pensar em comida, abraçar cachorros e sonhar acordada. Aprendeu a desbravar novos mundos com Tolkien e ainda espera por uma carta de Hogwarts.
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