Conto | A Torre de Marfim11 min de leitura

No sonho, o elefante morto levanta em meio à multidão que o cerca e vem na minha direção. Quero fugir, mas meu corpo não obedece. Ele para diante de mim, e começa a falar. Sua voz está por todo lado e me causa arrepios pavorosos, pois não é som o que eu escuto, e nem poderia ser, pois metade da sua cabeça foi removida. O branco deve cair, o branco deve cair ele repete sem parar. É sempre assim no meu sonho.

Depois disso, o elefante colossal desaba e minha irmã começa a gritar, e eu acordo.

Os sonhos começaram logo depois de eu completar meu sexto ciclo acima da terra. Foi numa tarde nublada em que o calor arrancava a água dos nossos corpos como o vapor de uma panela no fogo. Algumas pessoas corriam para assistir a passagem dos soldados, mas a maioria corria para a segurança de seus casebres. E elas estavam certas, porque o que eu vi naquele dia me marcou, e às vezes penso que deveria ter me escondido embaixo das cobertas, na segurança do lar. Foi esse o erro que me atirou nessa trajetória tortuosa.

Abri caminho entre a multidão para ver de perto os soldados em suas armaduras brilhantes, marchando orgulhosos carregando arma e escudo. Mas eles não estavam ali para ostentar riquezas inacessíveis ao nosso povo. Estavam ali para nos humilhar. Eu era baixo e não conseguia ver muito longe, mas logo muitos adultos caíram de joelhos. Eles começaram a gritar, chorar e praguejar, e eu não conseguia ver. Eu devia ter fechado os olhos.

Meu coração dispara. Paro de respirar. Quero correr, fugir daquele lugar, mas meus pés estão grudados no chão, como rochas pesadas que teimam em permanecer no lugar apesar de nossos esforços em movê-las. O terror me preenche quando um T’arac passa diante de mim, montado nas costas de rinoceronte. Eu nunca tinha visto um T’arac antes, mas as histórias dos demônios matadores de elefantes atormentam as noites de sono de todas as crianças. Ele exibia como troféu as presas ainda manchadas do sangue sagrado para que víssemos, impotentes, contemplando nossa incapacidade de defender nossas crenças diante de tal ultraje. Ele olhou para mim e eu quis morrer.

***

Hoje completo meu décimo nono ciclo acima da terra, e atendo o chamado. Diante do templo da vila, que sempre me pareceu tão pequeno, me preparo para os ritos sagrados que selarão meu destino como um legítimo N’abuc, protetor dos elefantes sagrados e do reino milenar herdado dos nossos ancestrais.

Lá dentro, minha querida irmã aguarda ansiosa a minha entrada. Quando fecho os olhos, visualizo o sorriso daquela que me criou com tanto carinho desde o assassinato brutal da nossa mãe pelas mãos de cavaleiros do Rei de Fora. Enquanto meus pés me carregam através das antigas portas do templo, minha mente se foca noutro desejo que cresce com força dentro de mim. Enquanto me ajoelho e profiro as palavras sagradas que tanto treinei, faço em silêncio meu próprio juramento. Vingarei a ti, minha mãe, que me trouxe para cima da terra e me amou. Tenha certeza de que o responsável por devolver-te ao solo pagará!

Quando convocado, ergo cabeça e punhos e recebo os braceletes. Sinto a benção de N’aburo percorrer meu corpo quando meu coração dispara e um êxtase toma conta de mim, corpo e mente. Eu me ergo e grito com toda a potência dos pulmões, anunciando ao mundo que agora sou um N’abuc, e estou pronto para cumprir meu destino.

Mas quando minha voz se extingue o silêncio não é restaurado. Vozes alteradas do lado de fora do tempo sugerem um tumulto inesperado. Algo está errado e os velhos mestres na plateia estão inquietos, posso ver em seus olhos, em seus trejeitos. Meu querido mestre N’andú se esforça para manter a calma e não arruinar esse momento tão especial. Eu faço o mesmo.

Minha irmã vem emocionada até mim e me abraça. Ela não fala nada, mas enquanto sua mão desliza pelo meu rosto num gesto sincero de afeto quase maternal, tudo o que vejo em seus olhos é um orgulho que me enche de confiança. A cicatriz em seu rosto é um lembrete constante de tudo que há de errado neste mundo, e que hei de consertar.

Confirmando nossos temores e arruinando a celebração dessa importante cerimônia, as portas do templo são escancaradas com violência e uma dúzia de cavaleiros com reluzentes armaduras prateadas invade o local sagrado, manchando-o para sempre.

“Blasfêmia!” grita o sacerdote ancião. “Vão embora, ou sofrerão a ira de N’aburo!”

“Para trás,” instruo minha irmã, interpondo meu braço direito entre ela e os agressores, empurrando-a gentilmente para trás. Eu não me perdoaria se algo acontecesse com ela, e subitamente protegê-la se torna minha maior prioridade.

Um cavaleiro tomou a frente, o líder dessa invasão profana, desse sacrilégio. Ele remove o capacete, revelando um rosto marcado por um passado de guerra e batalhas sangrentas. Sua voz é grave e confiante, e vai assombrar meus sonhos por anos a fio, enquanto eu me lembrar do quanto custou minha hesitação.

“Ninguém precisa se machucar. Nós queremos apenas você.” O tom da sua voz não me parece certo para uma abordagem segura, sem intenção de violência.

“Quem é você?”, eu demando com voz firme.

“Entregue-se e ninguém morrerá.”

“Por que me querem? Para que precisam de mim?”, eu insisto, tentando ganhar tempo.

“Você saberá quando for chegada a hora.”

“Você não pode, N’andir. Não pode se entregar!”, grita meu querido mestre N’andú, levantando-se num acesso de raiva pouco característico da sua pessoa.

“Vocês três, tragam o velho!”, ordena o invasor, apontando para os soldados à sua direita. “E você, velho, calado!”

Três soldados arrancam meu mestre do lugar onde estava, levando-o até o líder sem nome, que o agarra com violência pelos cabelos, puxando a cabeça para trás e expondo a pele enrugada do pescoço para a lâmina afiada da adaga. Meu mestre não luta. Apenas me encara com seriedade e pesar. Um frio percorre minha espinha, pois eu conheço meu mestre e sei que ele não vai ficar quieto.

“Lembre-se, filho. Siga o caminho do elefante.”

“Por que velhos são tão teimosos?”, resmunga o Cicatriz, segundos antes de afundar a lâmina no pescoço do mestre.

Eu assisto a cena impotente, e a morte do mestre N’andú me corta o coração. Mesmo quando ele joga o corpo a um canto, eu aguardo. A última coisa que quero é me precipitar e causar mais mortes desnecessárias. Se não houver outro caminho, e o inimigo garantir a segurança da minha irmã e dos outros, eu me entregarei.

“Ah, então você não gosta do que vê?” Ele é sarcástico e o sorriso em seu rosto denuncia um gosto sádico em assistir o sofrimento dos outros. “Entregue-se e eu paro.”

“Como poderá garantir a segurança dos outros depois de matar meu mestre? Como confiarei na sua palavra?”

“Quer que eu dê motivos para confiar na minha palavra? Não seja tolo, jovem insolente. Confiar é sua única opção.”

Uma mão delicada pousa em meu ombro, e a voz da minha irmã insiste. Haja o que houver, não se entregue.

“Não!”, eu me atrevo. “Não enquanto não tiver sua palavra de que todos aqui presentes serão libertados e deixados em paz.”

“Você quer a minha palavra? Que tal isto?”

Com passos rápidos o Cicatriz avança rapidamente na direção do corpo do mestre e pisa em sua cabeça. O mestre fecha os olhos, mas para o meu desespero eu sei que ele ainda está vivo. Nenhum mestre deveria ser tratado assim.

“Pare! Deixe-o morrer com dignidade!”, eu exclamo, pondo-me de joelhos.

“E quem és tu para exigir qualquer coisa? O Protetor dos Elefantes?”. Ele zomba de mim enquanto golpeia a cabeça do meu mestre repetidamente, sem qualquer sinal de misericórdia.

“Pare!”, eu rogo, chorando, mas ele continua golpeando até vencer a resistência sob suas botas manchadas de sangue.

E do desespero nasce a raiva que consome o homem.

N’andi roga para que eu não faça nada estúpido, mas ficar parado assistindo a profanação do corpo do meu mestre não é uma opção. A raiva suplanta o pensamento e a única coisa que me resta é cuidar daqueles que jurei proteger. Eu me levanto e avanço contra o inimigo.

Estou desarmado, então faço uso dos punhos da aura eufórica que me envolve, atacando o primeiro soldado que se aproxima da minha irmã com um gancho poderoso, deslocando o maxilar e levando-o ao chão, inconsciente. Um segundo soldado se aproxima rápido pela direita. Eu giro, desferindo um chute certeiro atrás do joelho, fazendo-o descer de encontro a um soco que afunda sua garganta. Alguém se aproxima por trás. Tento desviar, mas não sou rápido o suficiente e um golpe forte na cabeça me leva ao chão.

Uma luta tão rápida quanto minhas chances de vencer doze cavaleiros com as mãos nuas.

Não consigo enxergar e o mundo gira ao meu redor. Penso na minha irmã. Terá conseguido fugir? Não escuto a sua voz. Onde está? Tento abrir os olhos, mas o sangue torna tudo mais difícil. Não a vejo em lugar algum. Estou sendo arrastado pelos pés para fora do templo. Outro golpe me manda direto para o mundo sombrio dos sonhos, de volta aos pés do elefante morto, que teve metade da cabeça removida pelo prêmio das suas presas. O Branco deve cair. É sempre assim no meu sonho.

***

A consciência dá indícios de voltar aos poucos. Não faço a menor ideia de quanto tempo fiquei apagado. Abro meus olhos lentamente. A visão borrada, a brisa de terras desconhecidas e um fedor miasmático revelam aos poucos a natureza de meu cativeiro. Uma jaula fétida puxada por cavalos negros em direção a uma terra distante, muito longe de casa e das planícies sagradas que jurei proteger.

Todos os músculos do meu corpo gritam ao mesmo tempo quando me sento em meu cárcere apertado, as costas apoiadas às grades frias de ferro sujo. No lado oposto da jaula, enxergo o vulto de um corpo caído, e um desespero súbito toma conta da minha alma quando me cruza a mente um pensamento mórbido. Será N’andi, minha querida irmã, morta diante de mim?

Eu preciso descobrir. Preciso ter certeza. Começo a rastejar, e meu corpo fraco reclama do esforço descomunal necessário para me arrastar pelos dois metros que me separam da verdade que eu tanto temo e anseio. As lágrimas deterioram ainda mais minha visão, e quando eu chego perto o suficiente, a visão não basta para identificar o corpo. Levo minhas mãos trêmulas ao rosto embaçado, e ao tocar a pele fria meu coração encontra alguma paz. É um rosto feminino, belo, com certeza, e a pele é lisa e perfeita. A cicatriz não está lá. Não é minha irmã.

Mas então, quem será esta mulher? Uma nova suspeita cruza meus pensamentos. E em seus braços eu encontro os braceletes. Uma protetora. A implicação não poderia ser outra. Estamos sendo caçados.

Eu respiro fundo, aliviado por não ser minha irmã, e volto para o meu canto. Preciso descansar.

Ao cair da noite, vozes me arrancaram de um sono sem sonhos. Eram o cocheiro e um dos soldados que escoltavam a carga até as infames terras do Rei de Fora. Eu não compreendia o que diziam naquela língua estranha, mas eles estavam claramente animados. Nosso destino devia estar perto.

Minha visão retornara ao normal, apesar da fraqueza que se apossava do meu corpo. O sol deitava no horizonte, derramando sua luz diretamente nos meus olhos. Me cegando. O comboio dirigia-se para leste, o que confirmava minhas suspeitas do nosso destino.

A fim de obter alguma confirmação eu me viro, encarando pela primeira vez o caminho à frente. Nada poderia ter me preparado para esse vislumbre mortificante da verdade, pois ao longe eu vejo um vulto branco e pálido que se ergue gigante aos céus, até alturas que nada humano deveria alcançar. Com pesar, dou-me conta de que é uma torre. E uma blasfêmia colossal. Uma torre feita do marfim mais sagrado que esse mundo já viu.

É para lá que estão me levando.

Em meio ao desespero iminente eu enxergo meu destino, que se revela totalmente cristalino pela primeira vez. Será minha oportunidade de consertar as coisas e cumprir meu dever sagrado. Minha chance de redenção.

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Dyego Maas

Catarinense nascido um ano antes do lançamento do telescópio espacial Hubble, trabalha com desenvolvimento de software há oito anos em Blumenau. Leitor ávido de ficção científica e fã do terror cósmico lovecraftiano, adora ouvir audiobooks durante as peregrinações diárias para o trabalho. Jogador de videogame, aprecia jogos indie com sutilezas estéticas e foco narrativo. Num momento de loucura, vislumbrou uma realidade alternativa onde seu ganha pão vinha não de programas de computador, mas de histórias, e já que não pode viajar para aquela realidade, decidiu mudar a própria.
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