Entrevista | Renata Ventura9 min de leitura

Renata Ventura. Se você é um potterhead, provavelmente já ouviu esse nome. Carioca e fanática pelo universo do bruxo mais amado do mundo, Renata é a autora dos livros A Arma Escarlate e A Comissão Chapeleira, além de esperantista e criadora do projeto Harry Potter em Orfanatos.

Conheci a autora na Bienal do Livro de São Paulo no ano de 2012, enquanto estava na fila esperando para pegar o meu autógrafo com o André Vianco. Muito simpática, ela veio me apresentar o seu primeiro livro, A Arma Escarlate. Na época, achei sua proposta um pouco audaciosa. Um livro sobre um menino negro e morador de favela que descobre ser bruxo. Okay. Na hora fiquei com uma pulguinha atrás da orelha. Como é que essa moça vem me dizer que escreveu um livro sobre bruxos, baseado em Harry Potter, e ambientado no Brasil? Aquilo ficou na minha cabeça durante um bom tempo. Precisava ler e quando li, não me decepcionei. Sua escrita é maravilhosa e, embora seus livros tenham mais de quinhentas páginas, a leitura vence a intimidação de tantas folhas logo nas primeiras linhas.

Aproveitando a Bienal do Livro deste ano, aproveitei para entrevista-la. O resultado, vocês podem acompanhar a seguir:

Conte Histórias: Como você se descobriu escritora? Quais eram as suas expectativas quando lançou seu primeiro livro A Arma Escarlate?

Renata Ventura: Eu sempre quis ser escritora. Me formei em jornalismo pra ter mais ideias a respeito dos livros que eu queria criar. Desde criança eu gostava de ler e queria escrever histórias

CH: Então você nasceu escritora?

RV: Eu detestava escrever redação na escola. Porque eu nunca gostei de escrever o tema que a professora queria que eu escrevesse. Eu queria escrever o meu tema. Mas eu sempre fui bem, embora não gostasse, ficasse irritada.

CH: A faculdade de jornalismo te ajudou nisso?

RV: Ajudou, ajudou. Engraçado. Ajudou mais ainda do que eu pensava. Ajudou por ter aulas de política, economia, sociologia, psicologia e também me ajudou a resumir mais as coisas. A fazer um texto mais enxuto. Apesar do livro ser enorme, ele seria muito maior se o jornalismo que me ensinou a cortar frases, a transformar duas frases em uma, dois parágrafos em um. Porque no jornal você tem que fazer caber a notícia naquele pedacinho de página. E me ajudou a fazer títulos de capítulos e tal.

CH: E por que o universo Harry Potter? E por que no Brasil?

RV: Eu sempre amei Harry Potter. Enquanto eu lia Harry Potter ficava imaginando como seria a comunidade bruxa no Brasil. E ficava sempre falando: “Aqui no Brasil isso não ia funcionar. Aqui no Brasil ia ser diferente”. Então resolvi que eu queria escrever a respeito. Eu vi uma entrevista da J.K. Rowling em que um fã americano perguntava se ela um dia iria fazer um livro sobre uma escola de bruxaria nos Estados Unidos. Ela disse que não, mas, se ele quisesse, podia escrever o dele. Pensei: “Que bom, vou escrever o meu.”. Já estava imaginando como seria. Então são nestas coisas simples que as características brasileiras são diferentes. Por exemplo, lá tem todo aquele respeito pelos professores. Eles são chamados pelo último nome, Professor Snape, Professor Dumbledore. E aqui no Brasil a gente nunca chama um professor pelo segundo nome. A gente chama pelo primeiro, então, tem toda essa informalidade. Esta é uma coisa mais simples e até o mínimo detalhe brasileiro que tem no livro.

CH: Imagino que, no começo, você tenha recebido algumas críticas por trazer esse universo para o Brasil. E, talvez, ainda receba. Como você lida com isso?

RV: São poucas, na verdade. Geralmente pessoas que não leram o livro ainda, quando o leem, percebem que não tem nada a ver. Quer dizer, é inspirado em Harry Potter. Amo de paixão. A pessoa pode até imaginar como se fosse no mesmo mundo do Harry. Enquanto estão acontecendo algumas coisas na Europa, aqui no Brasil estão acontecendo outras. Mas o personagem é o oposto do Harry. O Hugo é agressivo, impulsivo, iria para a Sonserina se fosse para Hogwarts. E isso eu também queria. Quando lia Harry Potter pensava: “Caraca, seria legal se Harry Potter fosse do ponto de vista do Draco, ou do Snape”. Queria saber como seria isso no ponto de vista de um anti-herói. Então resolvi fazer assim e no próprio Brasil. A cultura brasileira, o folclore, a mitologia brasileira são completamente diferentes; muda tudo. A escola é uma bagunça (risos). A escola do Rio de Janeiro, né? São cinco escolas, uma em cada região.

CH: A escola do Rio é mais carnaval, não é?

RV: É. A do Rio é mais bagunçada.

CH: Quais são as suas referências na hora de escrever? Quem foram os seus “professores”?

RV: J.K. Rowling, sempre. Anne Rice. Amo Anne Rice, o jeito como ela constrói os personagens ultra tridimensionais, maravilhosos, cheios de questões filosóficas. Adorava aquilo e queria botar personagens complexos assim no meu livro. Estas foram as principais.

CH: Você insere vários elementos do nosso folclore em suas histórias. Eu imagino que isso requeira muita pesquisa. Como é esse preparo pré-escrita?

RV: Engraçado, eu precisava mesmo pesquisar porque eu mesma tinha preconceito com o nosso folclore. Porque a gente aprende folclore na escola, então é tudo infantilizado, tudo meio bobinho e não tem nenhum filme de Hollywood pra mostrar o lado obscuro dessas lendas. Nos fazer pensar: “Ah, essa versão é mais legal”. Quando eu era criança, tinha aquele desenho Dragão Cor-de-Rosa. Achava dragão a coisa mais idiota e quando eu vi no cinema: “Ah, dragão é legal!”. Isso não tem no folclore brasileiro. Então eu tive que sair pesquisando pra ver. E descobri. Até o Saci é um personagem que, no original, foi criado pra assustar adulto. Não tem nada a ver com aquele Saci camarada do Sítio do Pica-Pau Amarelo. E descobri um monte de lenda que eu não conhecia. São lendas assustadoras. Falei: “Tenho que colocar tudo isso no livro”. É difícil encontrar, porque você coloca folclore brasileiro na internet aparece um monte de coisa de criança. Você tem que ir pros livros. Tem que achar os livros, como os do Câmara Cascudo, que falem de folclore mais profissionalmente.

CH: Você trata de assuntos polêmicos como drogas, preconceito, marginalização, numa história de fantasia. Ouso afirmar que a magia do universo bruxo é apenas um pano de fundo, já que seus livros nos trazem vários questionamentos ao longo da leitura. Quando você pensou na história, já imaginava abordar estes temas? Ou isso foi surgindo conforme você se aprofundava na trama?

RV: É, foi surgindo. Acho que eu sempre fui muito realista. Então eu nunca gostei de uma história que fuja totalmente do real. “Ah isso não aconteceria na vida real”. Acabou que foi me levando a isso. A primeira ideia que eu tive era que o protagonista fosse de uma favela, a partir disso, tudo surgiu. Não poderia fazer uma favela irreal. As discussões começaram a surgir. Achei ótimo, porque eu sempre quis usar a fantasia pra falar da realidade. Sempre achei que a fantasia é pra isso, de alguma forma. Ou a realidade psicológica ou os sentimentos ou a realidade social/política no meu caso. Sempre que ia surgindo um dilema eu não fugia; eu colocava. Por exemplo, o próprio folclore, o Boto-Cor-de-Rosa. Meus leitores pediam por ele e diziam que era fofinho. Gente, ele é fofo? Ele é um boto que se transforma num homem pra pegar mulher, engravidá-la e enganá-la. Muito legal. Eles queriam que ele fosse um professor. Eu tinha que botar o Boto-Cor-de-Rosa, mas eu vou falar de gravidez na adolescência.

CH: Essa foi uma das melhores partes do livro. Mais surpreendente.

RV: Eu não conseguiria colocar o Boto e não falar disso. Impossível. Eu não fujo dos assuntos.

CH: Você é fluente em Esperanto*. Até onde você acha que esta língua poderia ser inserida na literatura?

RV: Na literatura? Bom, existem milhares de livros em esperanto e originais em esperanto. Teve um escritor, o William Auld, que já concorreu ao Prêmio Nobel só com livros em esperanto. Então é fantástico. E é fantástico para traduzir, porque é a língua mais simples do mundo. É uma língua super lógica. Se todos os livros fossem traduzidos de uma língua para o Esperanto e depois para as outras línguas, as traduções seriam mais fidedignas.

CH: Você acha que poderia existir um tipo de publicação universal? De repente, todo mundo publica em Esperanto pra todo mundo se entender.

RV: Ia ser maravilhoso. O meu livro, que já está sendo traduzido para o Esperanto por um dos meus leitores, pode ser traduzido por um outro esperantista em sua própria língua. É uma árvore com vários galhos. Muito mais fácil. Vence barreiras. Totalmente. E falar Esperanto é muito legal. Você aprende em quatro meses. Se o mundo inteiro resolvesse aprender Esperanto, em quatro meses estava todo mundo se comunicando tranquilamente. Mas é claro que a gente gosta de complicar as coisas.

CH: Nos últimos anos, o mercado literário brasileiro foi invadido por uma legião de novos escritores de ficção fantástica. Como avalia o cenário atual para quem ambiciona seguir a carreira de escritor? Há espaço para novos autores?

RV: Há muito espaço e é muito bom isso que esteja acontecendo agora. Cresce também através de indicações dos leitores. Tinha muito preconceito com literatura brasileira. Todo mundo achava que literatura brasileira é só Machado de Assis. E agora eles estão percebendo que tem autores atuais. Eles ficam empolgados e eles leem os livros, gostam dos livros e falam pra outras pessoas. Começa a crescer assim. Os novos autores que vierem vão encontrar um espaço bem mais aberto.

CH: Algum conselho para os novos escritores?

RV: Tenha paciência, trabalhem muito na divulgação que não adianta só publicar um livro. Você tem que realmente trabalhar, divulgar de porta em porta, perfil em perfil. Facebook. Skoob. O livro não vai crescer de graça. Você tem que ser marqueteiro também, não só escritor.

*O Esperanto é a língua artificial mais falada no mundo. Seu iniciador, o médico judeu Ludwik Lejzer Zamenhof, publicou a versão inicial do idioma em 1887 com a intenção de criar uma língua de mais fácil aprendizagem e que servisse como língua franca internacional para toda a população mundial. O esperanto é empregado em viagens, correspondência, intercâmbio cultural, convenções, literatura, ensino de línguas, televisão e transmissões de rádio. Alguns sistemas estatais de educação oferecem cursos opcionais de esperanto, e há evidências de que auxilia na aprendizagem dos demais idiomas.

Camila Servello Aguirre

Nasceu no interior de São Paulo e atualmente mora na capital, onde vive dividida entre suas duas maiores vocações: a veterinária e a literária. Embora fique maluca de pedra tentando se desdobrar entre ambas, não trocaria a caneta, muito menos a maloqueira Picanha, sua goldenlícia. Teve seu primeiro livro, “Os Cinco Demônios”, publicado em 2015 e já tem novos projetos em andamento. Atormentada por ideias, se diverte torturando o leitor com histórias cheias de reviravoltas.

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