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Quando chegamos, só havia mato. Literalmente. O trajeto para o campo era feito através de uma trilha que serpenteava entre os arbustos. Ao final dela, encontrávamos o famoso Campinho da Bananeira. Nunca descobrimos porque ele tinha recebido esse nome, afinal, não se avistava nenhuma bananeira por perto. É provável que ela já tivesse dado seus cachos e sido arrancada por algum desalmado.

O gramado era uma obra de arte. Como não havia dinheiro para um sistema de drenagem, a própria natureza se encarregou de resolver o problema com um declive de, pelo menos, 15 graus. Assim, a chuva logo escoava estrada abaixo, deixando a grama sequinha de novo. Grama esta que não nascia no habitat dos goleiros, como orienta os melhores manuais varzeanos. E, como simetria é coisa de quem sofre de TOC, as linhas de fundo não tinham, necessariamente, o mesmo comprimento.

Alguém pode dizer que é exagero sentimental, mas os maiores duelos varzeanos de meados dos anos 1990 foram disputados naquele trapézio. Sim, trapézio, porque retângulo não é para amadores, tampouco frescuras do tipo dois tempos de 45 minutos e a regra do impedimento. O trio de arbitragem também estava dispensado, pois os lances polêmicos eram solucionados na base do cavalheirismo. Ok, talvez eu tenha exagerado neste último ponto.

Naquelas tardes, o “time da rua de baixo” enfrentava o “time da rua de cima” em jogos que só eram encerrados quando o Sol nos abandonava para iluminar o outro lado do mundo. Em termos urbanos, a definição “rua de baixo” e “rua de cima” não era a mais correta. Fui integrante do esquadrão da rua de baixo, mas a verdade é que as equipes eram formadas por garotos de vários lugares da cidade. A diferença estava num suposto desnível social entre os times, o que nos rendia um tipo diferente de bullying. Segundo a turma da rua de cima, tínhamos obrigação de ganhar porque éramos bem nutridos, enquanto eles precisavam se contentar com broas que só eram partidas com ajuda de um martelinho.

Só que não cumpríamos a tal obrigação com tanta frequência. Vencíamos aqui e ali, mas não tínhamos a ginga de nossos rivais e o equilíbrio só era possível com aplicação tática – ou algo parecido – e muita vontade. Outra desigualdade estava nas alcunhas. Enquanto atendíamos por nomes reconhecíveis como Marcos e Reginaldo, nossos oponentes ostentavam apelidos maneiros como China e Bozó.

E havia Pitico. Dentro do nosso microverso, o moleque de braços e pernas finas era uma espécie de Garrincha. Dono de um repertório inesgotável de dribles, era o tipo de peladeiro que não desperdiçava a chance de aplicar um chapéu no adversário, ainda que custasse um contra-ataque. Isso irritava, é claro, mas encantava na mesma medida. Certa vez, Pitico dominou uma bola perto da bandeirinha de escanteio imaginária e esperou por sua vítima. O zagueiro voluntarioso – hoje um renomado biólogo – partiu à caça do pequeno driblador e deu um bote seco. Porém, como num passe de mágica, bola e Pitico não estavam mais lá. No embalo, só restou ao defensor saltar por cima do arbusto que fica ao lado da linha de fundo e desaparecer de vista. Uma nuvem de poeira amarela se ergueu em seguida. Depois de uns cinco minutos de gargalhadas dos dois times, o jogo seguiu.

Anos se passaram e um dia decidimos migrar para o futsal. Muita coisa legal aconteceu naquele piso duro, mas essa é outra história. Quanto ao Campinho da Bananeira, nunca mais voltei lá. Não tive coragem. Dizem que o lugar foi loteado e casas foram erguidas no lugar. Toda sorte aos moradores de lá. Se depender da alegria de quem um dia correu sobre aquele gramado, suas vidas serão muito felizes também.

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M.C. Magnus

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura fantástica para trazer à tona histórias em que a alma humana pode ser mais perigosa que monstros e bruxas.
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