Conto | Happy You30 min de leitura

Instalar o Plugin da Felicidade foi a decisão mais difícil que já tomei, e também a mais burra e inconsequente. Mas as consequências dos maiores erros não vêm na forma de uma morte rápida e misericordiosa, não… elas espreitam em silêncio por muito tempo e quando aparecem se mostram opressoras e cruéis. Enquanto assisto impotente a lenta evolução da barra de progresso, alimento a esperança de que não é tarde demais para voltar atrás e salvar o pouco que me resta.

Há dois anos eu tinha tudo e me considerava a pessoa mais sortuda do mundo. Se bem que toda pessoa realmente apaixonada deve se sentir assim… eu tinha o melhor marido e uma vida crescendo dentro de mim. Minha barriga crescera bastante nos últimos sete meses e meu passatempo preferido era passar as tardes ensolaradas no bosque nos fundos de casa, sentada numa cadeira de descanso lendo um romance. Eu lia em voz alta, para mim e para o meu pequeno Guilherme. Quando não estava viajando, meu marido lia para nós três. Era uma coisa especial, uma coisa só nossa. Mas o que é bom demais dura pouco e numa noite chuvosa no auge do inverno eu perdi tudo isso.

Voltávamos de uma festa de casamento. Já passava das duas horas da manhã e eu estava com sono e ele exausto. Ele havia acabado de voltar de viagem e não tivera tempo para descansar antes da festa. Estava tão frio lá fora que o aquecedor não estava dando conta, e me partia o coração ver todos aqueles mendigos por quem passávamos, dormindo lá fora nas calçadas geladas.

Sempre conversávamos durante nossos passeios de carro, mas não naquela noite, pois eu dormi a maior parte do caminho. Eu devia ter me esforçado. Acordei com o impacto do airbag na minha cara, o mundo girando ao nosso redor. Nesse momento de terror eu só tinha uma certeza: estávamos descendo. Mas tão súbito quanto o meu despertar foi o jeito como o carro parou. Seco e instantâneo. Estávamos de cabeça para baixo, e o teto invadira nosso espaço, como se por uma razão desconhecida, quisesse nos devorar.

Minha visão estava turva, e o pânico se apoderava de mim a medida que retomava a consciência do silêncio que me envolvia. No escuro, o pior inimigo é a solidão, e eu não queria estar sozinha. Por isso chamei pelo meu marido. Gritei. Para minha angústia não escutei sua voz. Explorei o ambiente com a mão esquerda, buscando desesperada por seu rosto. Mas eu encontrei mais do procurava.

Havia sangue.

Chacoalhei-o pelos ombros, chamando seu nome desesperada, na esperança de que acordasse, mas, novamente, não houve resposta. Levei a mão ao seu rosto somente para confirmar aquilo de que já desconfiava: ele não respirava.

Ah, se os motivos da minha dor tivessem parado por aí! Mas não. Mal tivera tempo para despejar a primeira lágrima quando senti uma pontada. “Agora não, agora não!” pensei como se aquilo fosse mudar alguma coisa. Eu precisava agir rápido, precisa pedir ajuda. Naquela época, ao contrário da maioria das pessoas, eu ainda me recusava a implantar um módulo de aumentação, então tinha de confiar no aparelhinho antiquado que era o meu smartphone. Até hoje me pergunto se meu filhinho teria sobrevivido se eu tivesse achado o aparelho a tempo.

***

Os meses seguintes foram os mais sombrios da minha vida. Assombrada pela lembrança constante do meu marido e filho mortos, comecei minha jornada até o fundo do poço, e um pouco além.

Desde criança, sempre que precisei de ajuda, minha irmã estava lá para me salvar. Era sua mão que me levantava cada vez que eu caía, e dessa vez não foi diferente. Logo que recebi alta do hospital, ela insistiu que eu ficasse na casa dela por um tempo. Tanto quanto eu sentisse necessário. Disse que era importante que eu não ficasse sozinha. Ali, eu teria o consolo da companhia dela e do meu cunhado, e poderia aproveitar meus dois sobrinhos.

Hoje, quando lembro dessa época não sinto muita coisa, e isso me assusta. Quero sentir raiva, mas não consigo. Quero lembrar como era estar triste, quero chorar pelo meu filhinho que não teve a chance de abrir os olhinhos, mas tudo o que sinto é um desconforto leve que me faz sentir um monstro. Afinal, que tipo de mulher é incapaz de chorar a morte do próprio filho? E no fundo da minha mente ouço a resposta sussurrada. Uma que é vazia. Sim, é isso que o plugin vem fazendo comigo. Me esvaziando.

Depois de quase quatro meses, e contra a vontade da minha irmã, decidi voltar para casa. Eu não aguentava mais olhar para aquelas crianças brincando felizes, imunes aos horrores do mundo lá fora. Rindo, pulando e brincando de todo tipo de coisa que só crianças são capazes de imaginar. As risadas me irritavam, pois trazia à tona a imagem do meu pequeno Guilherme dali a alguns anos, rindo e brincando pela sala, correndo atrás do seu cachorrinho. Mas então eu me dava conta da ilusão e a imagem se desfazia, e eu chorava.

Voltar foi difícil, pois tudo naquela casa evocava lembranças dolorosas de coisas que agora estavam fora do meu alcance. Algumas delas eram boas e me reconfortavam, mas a grande maioria alimentava a ferida ainda aberta. A única coisa sensata que eu podia fazer era deixar o passado para trás e olhar adiante, para o futuro e para as coisas boas que ele guardava para mim.

Minha jornada rumo ao futuro começou pela sala de estar, onde com grande pesar, encaixotei todos os quadros e fotos, e até as medalhas de natação do Charles. O apartamento foi mudando aos poucos, foi ficando mais leve à medida que eu dava um jeito em cada um dos cômodos. Eu estava perto de completar essa tarefa, mas havia um cômodo da casa que até então eu evitara a todo custo. O quarto do bebê. Ele era a única coisa entre eu e meu futuro. Decidi entrar, mas me arrependi tão logo abri a porta, pois o berço azul projetou suas sombras sobre mim, enterrando meu futuro em trevas.

De repente, como um balão que ao ser espetado por uma agulha perde num sopro todo o ar que possui, minha vida perdia o sentido, esvaziada de propósito e de esperança. Só havia a escuridão. Com o passar dos dias ela cresceu e ganhou força. Sugava minhas energias, minha vontade de fazer as coisas, de respirar e de viver. Eu sabia o que estava acontecendo comigo.

Depressão.

Ao longo das semanas seguintes, tornei-me reclusa e antissocial. Recusava as visitas da minha irmã e não saía de casa. Cada convite era recusado com desculpas cada vez mais esfarrapadas. Até meu amigo Richard tentou me visitar, mas não me dei ao trabalho de atender a porta. Eu desperdiçava os dias assistindo as mesmas séries de sempre, que sequer me entretiam. Não demorou e minha rotina se reduziu a dormir longas horas e hibernar nas outras.

Certa manhã, recebi uma ligação da minha irmã.

“Catarina, você não pode continuar assim… tem que se cuidar,” ela disse num tom de sermão que só irmãs mais velhas conseguem ter.

Não respondi.

“Escuta, eu conheço uma pessoa, uma médica…” Eu a conhecia muito bem e sabia quando ela hesitava. “Acho que ela pode te ajudar.”

Eu não tinha a menor vontade de ter aquela discussão. Pra falar a verdade não tinha vontade de fazer coisa alguma. Tudo o que eu queria naquela hora era dormir.

“Vou te mandar o contato dela. Se cuida, Caty.” A voz dela carregava uma tristeza que se somava à minha. Queria sentir saudades daquela tristeza.

***

Eu pesava pouco mais de quarenta quilos quando decidi pedir socorro, mas não tive coragem de chamar minha irmã. Era claro para mim que ela viria, mas não queria que me visse daquele jeito, como um esboço, um rascunho ruim do que ela lembrava. Liguei para a psiquiatra que ela recomendou alguns meses atrás.

No terceiro toque eu desliguei. Na velha TV da sala, Waldo Feliz estendia a mão para mim. Aquele personagem esquisito sorria e olhando nos meus olhos me convidava a seguir com ele pela grande trilha rumo a uma vida melhor. Se tem uma coisa que a história nos ensina, é que a felicidade está sempre em oferta. E era isso que ele oferecia, felicidade. E em qualquer outro momento da história eu teria recusado a oferta, mas não desta vez, pois ela emergia como um fantasma de um passado que agora parecia tão longe, na forma de um comercial do Happy You.

Eu trabalhara no desenvolvimento daquele plugin. Ajudei a moldar boa parte da experiência de usuário e sabia do que ele era capaz, de como ele tornara a vida de tantas pessoas melhor. Eu acreditava nele. Mas tinha a questão do módulo de aumentação. Sem um desses, não poderia instalar esse plugin nem qualquer outro. Instintivamente, levei a mão direita até a nuca e acariciei-a levemente. Um calafrio percorreu todo o meu corpo quando a imagem tomou forma, da perfuratriz atravessando meu crânio para implantar um dispositivo de interface cérebro-máquina. Minha visão turvou e acho que apaguei por uns instantes.

O comercial tinha terminado, mas eu estava apenas começando. Há anos eu vinha adiando a implantação de um módulo, enquanto praticamente todos à minha volta migraram para o novo sistema. Ao insistir no meu antigo smartphone, eu seguia o mesmo caminho que meus avós, tão criticados pela minha geração por se recusarem a abandonar seus velhos aparelhos celulares. Se continuasse agindo dessa forma, a única coisa que eu conseguiria era me privar de uma vida melhor.

Mas os módulos de aumentação ofereciam mais do que comunicação e acesso a conteúdos instantâneos. Havia plugins de manipulação de humor, uma versão mais sutil da sua contraparte ficcional, os “órgãos de condicionamento mental” apresentados no livro Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? O Happy You fazia uso extensivo dessas capacidades. Ele não criava felicidade, mas atuava como um mediador, realizando pequenos ajustes hormonais sempre que necessário. Um pouco menos de tristeza pode tornar o dia de alguém muito mais luminoso.

Havia, é claro, a questão do implante que eu tanto temia. Mas eu já não enxergava outra saída. O plugin era muito mais seguro do qualquer coquetel de remédios tarja preta que os psiquiatras costumam receitar e que não passam de medidas paliativas, nunca atacando a verdadeira causa do problema. Ao invés disso, esses remédios mexem com nosso cérebro como se ele fosse algum tipo de sopa que só precisa dos temperos certos para ficar boa. Não, remédios não eram uma opção.

Eu precisava falar com alguém. Precisava de um amigo.

***

Desde que chegou, Richard evitava olhar para mim. Ficava desviando o olhar, procurando qualquer coisa que mantivesse seus olhos ocupados. Ele não gostava do que via e não o culpo por isso.

“Caty… não sei se posso fazer isso por você.” A voz dele era pesada.

“Mas você e eu sabemos que eles não vão implantar um módulo em mim comigo desse jeito!”

“E talvez com razão. Olha só pra você! Não é seguro, Caty!” Seu tom era duro e eu não estava preparada para isso. As lágrimas começaram a escorrer. Quando continuei, minhas palavras saíram balbuciantes e mergulhadas em soluços.

“Richard, eu não posso esperar mais. Olha pra mim e vai perceber que eu não tenho muito tempo!” Ele me encarou com seriedade e não desviou o olhar dessa vez. Pelo menos até algo chamar a sua atenção.

“Por que você virou todos os retratos para trás? E não tinha um espelho naquela cristaleira?,” ele perguntou apontando com o dedo. Era o jeito dele de desviar de assuntos que o deixam desconfortável.

“Richard, eu quero a minha vida de volta! Me ajuda, por favor!”

Após um minuto de pausa, ele continuou:

“Você já pensou em como a sua vida vai mudar se você seguir adiante? Você é uma das poucas pessoas que eu conheço que não foi aumentada de alguma forma. E Caty, eu gosto disso em você. Se decidir seguir em frente, a maneira como você encara o mundo vai mudar. Mas você já sabe disso, não é? Não vai mais precisar de um computador para acessar a Internet ou fazer uma ligação. Poderá recusar ligações, mas nunca mais estará desconectada… nunca mais verdadeiramente só.”

“Já tomei minha decisão.” Apertei as mãos dele mais forte. “Eu quero fazer isso, Richard. Me ajuda.”

Ele inspirou fundo, fechando os olhos. Quando expirou o ar dos pulmões ele me encarou num tom sério que eu nunca vira nos anos em que trabalhamos juntos. Ele pegou minhas mãos nas suas, segurando firme.

“Eu conheço alguém que pode ajudar, mas pode ser perigoso. Sabe do que estou falando?”

“Sei.”

“E entende os riscos?”

“Sim.” Eu não entendia.

***

Estou assustada, e tudo começou na manhã de ontem, quando saí para correr. A confusão, a noção escorregadia de que algo está errado, essa… coisa na minha cabeça que parece estar sempre a espreita, aguardando ardilosa o momento para dar o bote, sair das trevas e revelar sua natureza vil, que devora meus sentimentos.

Saí para correr antes do amanhecer para aproveitar o ar fresco da manhã. Nos últimos meses investi na minha saúde e bem estar. Busquei novas atividades e me apaixonei pela corrida. De manhã eu corria sozinha, e a noite com um grupo de corrida muito legal que conheci. Foi assim que aprendi a apreciar as pequenas coisas e ver com novos olhos a minha cidade. Ela não é apenas uma selva de concreto sem alma, mas uma coisa viva, como um gigantesco organismo, que pulsa com vida por todos os cantos. A prefeitura parece estar fazendo um ótimo trabalho de revitalização, com a adição de lindos canteiros por toda a cidade.

Meu roteiro atravessava o Parque Central da cidade. Esse parque era enorme e repleto de bosques, lagos e trilhas, e era atravessado de um lado a outro por um riacho que adicionava um toque de tranquilidade e paz às minhas corridas.

Depois de assistir ao nascer do sol, retomei o caminho de volta para casa. Corri por vários minutos no automático, sem prestar atenção ao percurso, e então me dei conta que seguia outro caminho, e que não era para casa que eu estava indo, mas para um cemitério.

Havia vários cemitérios na cidade, e aquele tinha sua cota de lápides elaboradas e criptas muito antigas, algumas das quais pareciam ter vindo ao chão há décadas, a julgar pelo estado dos destroços. Um letreiro de metal anunciava o nome do lugar, mas estava enferrujado demais para ler. Entrei pelo portão dos fundos com certa curiosidade, mas a cada passo um temor primordial crescia em mim e meus pés ficavam mais pesados e mais lentos.

Foi então que notei a nogueira. De qualquer ângulo que a visse, seria impossível não reconhecê-la, pois os seus galhos enormes miravam para o céu e evocavam na minha mente a imagem de uma pessoa rogando por algo que nunca poderia ter. E eu sabia o que havia embaixo dela.

Me aproximei vagarosamente das duas lápides, e quando cheguei perto o suficiente, toquei a maior delas, a lápide do meu querido Charles. Dei a volta e encarei-a de frente. Achei que ao ler a inscrição gravada na pedra, especialmente o ano da sua morte, eu fosse chorar e desabar na grama fofa. Nada.

A menos de um metro, a outra lápide, muito menor, parecia me encarar. Avancei até ela e me sentei na grama com as pernas cruzadas à sombra da árvore, em completo silêncio. Por um tempo que pode muito bem ter durado a eternidade, eu esperei que as lágrimas viessem.

Elas não vieram. Eu não senti nada.

O que veio foi uma sensação desagradável, que foi crescendo a cada minuto. Uma coisa mais racional que emocional… A sensação de que havia me perdido, de que eu cometera o maior dos crimes, esquecer daqueles que ama. Se os mortos continuam a existir de alguma forma, com certeza é na memória daqueles que ficam. E se é assim, então Guilherme e Charles estão definitivamente mortos. Esse pensamento atravessou minha mente como uma bala que rasga tudo em seu caminho. Mas a dor não durou mais do que dois ou três segundos, e foi seguida por uma sensação de paz e um sentimento de que estava tudo certo, como se o passado tivesse perdido toda sua importância. Eu não sabia o que fazer.

Além disso, eu não me sentia uma traidora, mas queria e ansiava por me sentir dessa forma, porque somente assim poderia me olhar no espelho e ver uma pessoa decente me encarando de volta. Não havia mais coerência entre o que eu pensava e o que sentia. E o que isso fazia de mim? Uma hipócrita comigo mesma? Quando foi que mudei tanto assim, e por que não percebi antes?

E então percebi que não, não foi culpa minha, não poderia ter sido. Era o plugin. Tinha de ser.

***

É verdade que o plugin salvou minha vida, mas se esse é o preço para a salvação, ele é alto demais. Prefiro vender minha alma ao diabo a abrir mão dos meus sentimentos, das minhas memórias e da minha personalidade. Infelizmente, remover um plugin como esse não é trivial e pode ter efeitos colaterais imprevisíveis. Por isso, antes de removê-lo eu precisava ter certeza de que o plugin era o culpado, ou se era alguma outra coisa. Eu precisava descobrir o que restou da minha vida.

Desde aquele dia em que minha irmã me ligou para recomendar uma psiquiatra, nunca mais falei com ela. Ela morava a apenas cinco quilômetros dali, num bairro residencial da cidade. Eu podia ter corrido até lá, mas um desânimo se apoderou de mim. Então peguei um táxi.

O rádio estava ligado com volume bem baixo num programa em que discutiam sobre a crise econômica e o desemprego rompante. O carro elétrico era mais silencioso que um mosquito, e mesmo a vários quarteirões de distância pude ouvir os gritos de um protesto. O taxista percebeu minha curiosidade e aproveitou a deixa para puxar conversa.

“Sabe, eu costumava achar que essa geração toda estava perdida, mas sabe que essa onda de protestos até que me dá um pouco de esperança?”

Eu não estava sabendo de onda de protestos nenhuma. Se era verdade, devia estar passando nos canais de informação. Conferi rapidamente as notícias com o auxílio de um dos meus plugins, coisa que logo eu não poderia mais fazer. Elas estavam todas lá, até mesmo em alguns canais de notícias que eu seguia. Como aquilo podia ter passado batido até agora, sem eu perceber?

“Ah, você também colocou um desses…” disse ele com um ar de decepção.

“Como você sabe?” Eu tinha certeza de que ele não podia ver o meu plugue por causa do cabelo.

“Você vira os olhos pra cima e pro lado. Muita gente faz isso. Já te levei para casa uma vez. Faz uns meses. Eu sou bom de rostos. Você parecia muito doente e não queria conversar de jeito nenhum, mas lembro de você comentar que não gostava dos módulos. Fico triste que tenha mudado de ideia.” Ele tentou disfarçar, mas seu tom de voz o traiu. Ele não gostava dos módulos, nem um pouco.

“Pode me deixar ali, por favor, perto daqueles canteiros,” falei apontando para um canteiro baixo e bem florido.

“Que canteiro?” perguntou um pouco ríspido, com olhar de reprovação.

“Aquele logo ali,” respondi apontando, mesmo sem entender o porque daquilo.

“São vinte,” disse, estendendo a mão. Paguei e saí calada. Ele não se despediu.

Enquanto avançava distraída em direção à entrada do prédio, um ciclista bateu no meio fio uns quinze metros atrás de mim. Virei para ver o que tinha acontecido, mas continuei seguindo em frente. O ciclista praguejava e parecia ter machucado feio o tornozelo, mas não parei para ajudá-lo. Ao invés disso chamei uma ambulância, novamente usando um plugin de chamadas. Era engraçado como em tão pouco tempo eu me tornara tão dependente dessa porcaria. E enquanto me perdia nesses pensamentos tropecei num canteiro de flores e caí. E para meu tormento, alguém gritou comigo.

“Olha por onde anda, vadia!”

Levantei e olhei ao redor assustada, tentando identificar o dono da voz. Não tinha ninguém por perto. Ao que tudo indica, ela tinha vindo da direção do canteiro em que tropecei. Cautelosamente tomei distância. O canteiro parecia ter se movido um pouco, mas deve ter sido impressão minha. Mesmo assim, apressei o passo. Notei que havia muitos outros canteiros estranhamente assimétricos ao longo da calçada, um mais bonito que o outro, o que era estranho, pois eu definitivamente não lembrava deles estarem ali no ano passado, quando morei com a minha irmã. Além disso, eles não combinavam nem um pouco com o estilo arquitetônico da vizinhança. Acho que esse foi um dos maiores sustos que já tomei na vida.

Entrei no saguão do prédio e sentei num dos sofás da recepção, o coração quase saltando pela garganta. Acessei os menus de configuração do plugin, mas não encontrei nenhuma opção referente a alteração da percepção visual do usuário. Não, eles não podiam ter ido tão longe. Com a legislação vigente isso seria obviamente ilegal. Os termos da licença de uso também não mencionavam nada sobre algo do tipo, o que só conferia volume às minhas dúvidas. Eu precisava ver a minha irmã.

O elevador me deixou no andar dela e, depois de um momento de hesitação, toquei a campainha. Quando ela abriu a porta, eu podia jurar que em seus olhos havia um tipo de amargor, um desgosto por me ver. Isso me pegou de surpresa, pois eu esperava justamente uma reação oposta. Eu ansiava por um abraço. Queria que ela ficasse feliz em me ver bem, e saudável. Sem dizer nada, ela fez sinal com a cabeça para que eu entrasse.

Na cozinha, ela se pôs a preparar duas xícaras de café. Por vários minutos não trocamos palavras, o que agravava a situação, que se tornava mais desagradável a cada minuto que se passava. O desconforto dela era evidente, e devia ser bem maior que o meu, abafado pelo plugin. Eu me esforçava para imaginar o que se passava na cabeça dela, tentava supor o que eu teria feito de tão errado, mas nada vinha à mente. Só me restava fazer o óbvio, conversar com ela.

Quando enfim ela serviu os cafés e sentou-se à mesa comigo, aproveitei a oportunidade para quebrar o silêncio com o que achei, seria um bom começo.

“Então… como estão vocês quatro?”

As feições no rosto dela mudaram assim que terminei de falar. Parecia que ela queria me trucidar, e me arrependi no mesmo instante.

“Você só pode estar de brincadeira,” disse ela num tom tão sarcástico que doeu.

“O que foi que eu fiz?” perguntei assustada pela reação dela. Aquilo não me parecia justo.

“O Carlos morreu ano passado e você vem me perguntar como estamos nós quatro?” Ela gritou as últimas palavras. Seus olhos estavam encharcados de lágrimas que se recusavam a descer por seu rosto vermelho de raiva.

“Desculpa, eu não sabia.”

“E você ainda me vêm com essa de que não sabia. Você deu um like no post de despedida pra ele, porra! Como não sabia? Nem mesmo um comentário, um e-mail. Você podia ter ligado ou passado aqui pra me dar um abraço pelo menos, mas um like? Tem ideia de como isso doeu?”

Eu travei. Não sabia o que responder, nem se havia resposta para uma situação dessas. Tentei me explicar, mas devia ter ficado calada.

“Clara, escuta, por favor. Não é culpa minha, foi o Happy You.” Não eram bem as palavras que eu gostaria de ter dito, mas teriam de servir, porque agora já haviam sido ditas.

“Ah, agora você quer vir com desculpas! Não me importa se você está usando essa porcaria de plugin ou fumando maconha, crack ou o que for. O que importa é que você não estava aqui quando precisei de você! Devia ter vergonha, ainda mais depois de tudo o que fizemos por você!”

“Clara…”

“Vai embora!” Ela se levantou abruptamente, derrubando a cadeira no chão.

“Eu…”

“Vai embora daqui!” gritou. As mãos dela tremiam, e por um momento achei que ela fosse jogar o resto do café na minha cara.

Respirei fundo e me dirigi até a saída, onde ela já me esperava com a porta aberta apontando para eu dar o fora. Parei no corredor e a encarei. Eu estava tão séria que deve ter doído nela, pois devia parecer desdém da minha parte, uma completa apatia que não devia existir entre irmãs. Ela fechou a porta sem dizer nada.

Caramba! Em que mundo eu vivi nesse último ano? Seja qual for a resposta, não é o mundo real, mas um desconexo de tudo o que realmente importa. De repente, sou incapaz de lembrar como era a sensação de um abraço do marido e não consigo lembrar da sensação de sentir um chutinho na minha barriga. De que adianta poder sorrir e não conseguir chorar?

Eu precisava remover o plugin o quanto antes, e só me restava a esperança de que não fosse tarde demais para reverter pelo menos parte do estrago.

***

É nas horas de dificuldade que se percebe o preço de realizar uma operação clandestina como a que realizei. Tive meu módulo implantado por um homem de quem sequer possuo o contato. Eu bem sabia que as penas para esse tipo de coisa vinham se agravando a cada ano. Richard fora a ponte. Eu precisava falar com ele.

Tentei contatá-lo pelo plugin de mensagem direta, mas não obtive resposta. O status dele era “Ausente”. Acessando seu feed num plugin social, verifiquei que ele não postava nada há cerca de três meses, o que me deixou preocupada, porque ele sempre tivera o hábito de fazer vários posts diários. Também não tuitara nada recentemente.

O que encontrei foi algo muito pior e que me deixava ainda mais temerosa. Ele estava morto. Cometera suicídio pulando da sacada de seu apartamento, a mais de 30 andares do chão. Isso foi no começo mês passado. Outra notícia da qual, se tomei conhecimento, não guardava recordações. Não me surpreendi ao perceber que não estava tão abalada quanto devia.

 Só me restava uma opção. Encontrar o Skinhead.

***

Eu me sinto pequena diante dessa porta de metal. Atrás dela está a única pessoa com poder para me salvar removendo para sempre esse plugin maldito. Levanto a mão para tocar o interfone, mas as dúvidas encontram seu caminho até a superfície da consciência. Eu hesito.

Por todo o tempo em que estive ali parada, reunindo a coragem necessária para apertar aquele botão, a câmera de segurança me observava. Da última vez que estive ali estava acompanhada pelo meu amigo Richard. Acima da porta havia um letreiro que anunciava um estúdio de tatuagem.

Fechei os olhos e apertei no botão do interfone, e os segundos duravam minutos. Então ouvi um chiado, seguido por uma voz.

“Vá embora. Eu não posso te ajudar.”

Era como eu temia. Ele provavelmente não dava a mínima para mim. Se eu não fosse capaz de convencê-lo a mudar de ideia, estaria perdida. Richard tentara oferecer-lhe dinheiro pelos serviços prestados, mas por algum motivo que desconheço, ele recusara. Eu não possuía nada que ele quisesse, então só me restava apelar para o sentimento, para a empatia, e torcer para que ele se sensibilizasse pela minha situação. Sem precisar atuar, olhei para a câmera, totalmente inexpressiva, e fiz o melhor que pude:

“Eu não consigo mais chorar.”

Não houve resposta, e por um minuto muito longo achei que estava tudo acabado. Mas o silêncio foi finalmente quebrado por uma única palavra.

“Entre.”

Eu tinha certeza de que ouvira um suspiro.

***

Pela segunda vez eu estava naquela sala escura, deitada numa cadeira reclinável, igual àquela no estúdio de tatuagem na sala da frente. A única iluminação vinha de uma dúzia de monitores espalhados pela estação de trabalho. O Skinhead plugara um cabo na base do meu crânio, ligando-me ao seu computador. Ele pôs a rodar alguns diagnósticos para avaliar a situação do meu módulo e do software instalado.

“Vai funcionar?” perguntei, desesperada por quebrar o silêncio que se arrastava há quase uma hora.

“Não sei ainda. Essa versão do plugin que instalamos não é uma versão comum. Não tenho permissão para remover.”

Por um segundo apenas, adrenalina correu pelas minhas veias, mas logo foi abafada. Ele percebeu minha reação e pareceu esboçar um sorriso, talvez de alívio por ainda ter algo de humano em mim.

“Não se preocupe, vamos dar um jeito.”

Se ele tentou dizer aquilo para me dar alguma esperança, não funcionou como ele queria, pois havia alguma coisa no seu tom de voz, um grande pesar talvez, como se antecipasse algo ruim. Isso não era nada animador, então decidi não tocar mais no assunto.

Ele fechou os programas de diagnóstico e digitou alguns comandos em seu teclado. Uma janela abriu com uma barra de progresso. Na tela estava escrito algo parecido com:

“Desinstalação em progresso. 19% concluído”

Eu acompanhava ansiosa o preenchimento daquela maldita barrinha verde na tela preta quando outro monitor acendeu. Mostrava a imagem da câmera de segurança na entrada. Dois homens vestidos com ternos pretos e óculos escuros estavam à porta. O que eles queriam com o Skinhead? Uma coisa ruim me ocorreu. Algo relacionado ao que ele dissera minutos atrás, sobre não ter permissão para remover o meu plugin. Haveria alguma relação? Estariam atrás de mim?

O Skinhead respondeu alguma coisa ao interfone, desligou todos os monitores e arrancou sem aviso o plugue da minha cabeça. Não vi se a barra de progresso foi concluída. Havia uma pequena janela nos fundos da sala, protegida por uma grade de metal. Ele arrancou a grade da parede, como se ela estivesse apenas encaixada ali, e quebrou o vidro com um taco de baseball. Arrastou a cadeira reclinável e puxou o velho tapete vermelho desbotado, revelando um alçapão. Ordenou que eu entrasse.

Hesitei.

“Vai logo!” insistiu.

Entrei e ele fechou a tampa de metal acima da minha cabeça, me deixando no escuro. Ouvi o móvel sendo arrastando de volta ao seu lugar. A cena estava montada, mas por que raios ele se arriscaria por mim? Na minha situação, a única coisa que posso fazer para ajudar é ficar quieta aqui nesse cubículo escuro e não dar um pio, mesmo no caso de algo ruim acontecer.

No estúdio lá na frente eles começaram a discutir. Pelo sotaque deviam ser russos. Enquanto um deles continuou discutindo com o Skinhead no estúdio, um deles verificava os monitores. Ele estava bem acima de mim. De repente, vários monitores foram quebrados e a discussão ganhou escala, até que um som abafado restaurou o silêncio que há apenas alguns minutos reinava no local. Ouvi a porta da frente batendo, mas aguardei ali embaixo por mais de uma hora, até ter certeza de que estava sozinha.

Para minha decepção, os homens de preto haviam destruído todos os monitores e levado o computador do Skinhead. Eu não tinha visto a desinstalação terminar, mas fiquei um pouco mais aliviada ao verificar que o Happy You não constava mais na lista de plugins instalados no meu módulo.

Eu sabia o que me esperava na outra sala. Finalmente eu lembraria como era me sentir mal com uma cena grotesca, assim como me senti da primeira vez que, ainda criança, testemunhei um acidente de carro com vítimas fatais e vomitei ao ver uma perna separada do seu corpo. Se for para acontecer, que aconteça. Pelo menos eu saberei que sou eu outra vez!

Eu avanço cautelosamente até a sala da frente, onde encontro o corpo do Skinhead estendido no chão. É a primeira vez que me dou conta de que não sei o nome verdadeiro dele. Queria ter perguntado. Havia um buraco entre os olhos, e sangue na parede e no balcão. A cena era feia, com certeza, mas estava tudo certo. Essas coisas acontecem.

Eu tinha de sair dali logo, porque os homens de preto logo mandariam alguém para limpar a bagunça. Saí da loja refletindo no que eu havia me metido. Fui pega em algum tipo de conspiração que envolvia forças muito além do meu controle. Forças sobre as quais eu nada sabia. Talvez tudo o que eu precisasse era fugir para bem longe e começar de novo. Acho que depois de tudo que passei, mereço um novo começo.

***

O sol já está alto no céu e eu caminho pelas ruas da minha cidade, numa última despedida para alguém que se ama. Eu atravesso o parque, sempre acompanhando o fluxo d’água. Visito o cemitério onde meu marido e meu filho estão enterrados, e por todo o percurso observo a quantidade curiosa de novos canteiros na cidade.

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Dyego Maas

Catarinense nascido um ano antes do lançamento do telescópio espacial Hubble, trabalha com desenvolvimento de software há oito anos em Blumenau. Leitor ávido de ficção científica e fã do terror cósmico lovecraftiano, adora ouvir audiobooks durante as peregrinações diárias para o trabalho. Jogador de videogame, aprecia jogos indie com sutilezas estéticas e foco narrativo. Num momento de loucura, vislumbrou uma realidade alternativa onde seu ganha pão vinha não de programas de computador, mas de histórias, e já que não pode viajar para aquela realidade, decidiu mudar a própria.
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