Conto | Cartão de Crédito Platinum

Por: Camila Servello Aguirre

O dinheiro compra tudo e ele, com os seus milhões, sabia bem disso.

Não foi nem um pouco difícil conseguir um daqueles aviões jumbo, muitas vezes usados no transporte de carga. Daqueles que têm uma porta monstruosa no final do bojo. Gastou uma parte da sua fortuna conquistada no mercado de ações alugando um para si.

Conseguir o piloto foi um pouco mais difícil. O roteiro da viagem não era dos mais convidativos. Quem, em sã consciência, toparia sobrevoar o Triângulo das Bermudas? Mas ele encontrou um veterano da Guerra do Iraque perturbado o suficiente e confiante ao extremo para aceitar aquela empreitada. Precisou de um pequeno desvio do trajeto, pois não sobrevoariam diretamente o lugar e, claro, uma quantia volumosa de dinheiro para massagear o ego do sujeito.

Mas o dinheiro compra tudo. Inclusive pessoas.

Comprar um quilo de cocaína, com dinheiro vivo, foi a tarefa mais fácil que conseguiu realizar em seus preparativos. Obviamente, nunca havia frequentado uma boca de fumo e, Deus, como era bom ter contatos o suficiente para não precisar fazê-lo. Recebeu o traficante, um sujeito grosso, com um vocabulário de causar arrepios, em sua própria casa. Provar que sua intenção era a de realmente comprar a droga, requereu um gasto maior, mas, no fim, convenceu-o de que não era policial e não se tratava de uma armadilha. Conseguiu comprar a quantia que queria da mais pura branquinha da cidade. Um conhecido lá da bolsa atestou a qualidade.

Encontrar o melhor sushiman, com todo aquele boca-a-boca, era a coisa mais fácil do mundo. Mas ele não queria o melhor. Queria justamente o pior e isto precisou de algum tempo e de muita pesquisa. Convencê-lo a aceitar a missão que tinha a lhe ofertar foi uma tarefa das mais hercúleas. Sua história foi repetida à exaustão e muito mais dinheiro migrou até o bolso do relutante homem. Estava convencido de que ele era o cozinheiro que precisava, afinal, ele mesmo não confiava na própria destreza para preparar uma carne de baiacu. Quanto pior, neste caso; melhor.

O pescado fresco seria entregue no dia de sua empreitada.

Como era bom o dinheiro comprar tudo, inclusive a ética das pessoas.

A cereja do bolo foi trazida dos confins da Floresta Amazônica. Alguns indígenas de lá cultivavam a tradição de enfiarem as mãos em luvas repletas de formigas imensas, vermelhas, e com uma mordida de fazer inveja a muito animal peçonhento por aí.

Índios não ligavam para dinheiro, mas alguns mercenários, sim. Bastou pagar para receber seu pedido.

Tudo pronto. Embarcou em sua aventura, cercado por seus melhores amigos – aqueles que o dinheiro pode pagar. Turbulências, o mau-humor do piloto e o desespero do moralmente comprometido sushiman não arrefeceram seu ânimo.

Quando o tempo de viagem já era contabilizado em horas, veio o aviso: “Se aproximando do alvo em dez minutos”.

Era sua deixa.

A carreirinha já estava pronta, e foi inalada com a maestria de um usuário de primeira viagem. Sua narina foi pintada pelo pó branco e ele aspirou com força total o máximo que conseguiu. Não demorou muito e começou a sentir o efeito da droga. Por um lampejo de segundo quase desistiu, mas o tóxico lhe deu a coragem necessária. Deu mais uma aspirada e se apressou. Seu organismo despreparado e debilitado não aguentaria muito antes de uma overdose.

Foi a hora de piorar as coisas.

Ingeriu um belo pedaço do baiacu preparado pelo incompetente cozinheiro. Para um prato que não foi experimentado nem por quem o preparou, o tempero estava muito bom. A carne era saborosa e suculenta. Nem parecia ser portadora de uma toxina letal.

Doido pelo efeito da droga, esperando pela toxidez do veneno, faltava a última sensação da noite antes de sua derradeira loucura.

Ignorou os olhares de espanto e não hesitou em colocar as mãos no par de luvas contendo aqueles formigões. O contato assustou-o mais que a elas. Mesmo assim, manteve-se firme. A cocaína, sem dúvida, afetava o senso crítico e a sanidade das pessoas. A dor veio logo e foi intensa, excruciante. Ele quase desmaiou e precisou de uma força sobre-humana para manter-se acordado àquela altura. Num movimento brusco livrou-se das luvas que caíram espalhando os pequenos insetos pelo chão do avião. Não prestou atenção ao rebuliço que causou. Estava bem mais preocupado em tentar respirar e controlar a taquicardia. Apoiou-se na parede do avião e levou a mão ao peito sentindo uma escola de samba batucando completamente desritmada dentro do seu tórax. Sentia uma dor angustiante que se sobressaía em muito aos efeitos desejados da droga. Sabia que em poucos segundos seu coração explodiria e tudo estaria acabado antes mesmo que a toxina do baiacu o impedisse de respirar.

Era excruciante lidar com um coração enlouquecido, tentar puxar o ar para os pulmões e ainda sofrer com as mãos em brasa. Mesmo em seus minutos finais, não se arrependeu da loucura que fez. Experimentaria toda aquela carga de risco e adrenalina antes de deixar o mundo.

– Trinta segundos! – ouviu o piloto anunciar em meio à barulheira e ao zunido nos ouvidos.

Escorou-se na lataria e avançou o mais rápido possível para o fundo do avião. Ao alcançar o grande botão vermelho, apertou-o com tudo, satisfeito. Esperou o que pareceu uma eternidade até a grande porta abrir por completo e fitou o azul do céu, tão magnífico, e, mais abaixo, um pouco do mar.

O avião tremeu e exigiu um esforço tremendo do piloto que não foi avisado de que abririam a porta. Seus convidados gritaram impropérios e, desesperados, clamaram para que aquele maluco fechasse logo a bendita abertura. Em nenhum momento alguém pareceu se preocupar com o que ele estava prestes a fazer. Seu último ato.

Então, sem mais delongas, sem mais avisos, sem qualquer despedida, ele lançou-se para fora da aeronave. Sem paraquedas, a queda teria um fim trágico, mas depois de seu organismo absorver tantas substâncias nocivas era provável que chegaria ao mar já morto. Ao menos, depois de tudo que passou, pôde escolher como e quando morreria. Em seus últimos segundos de vida, chegou mais uma vez à mesma conclusão do dia em que recebeu aquele diagnóstico:

O dinheiro compra tudo, menos a cura de uma pessoa com câncer terminal.


Card alaranjado com a foto e a mini bio da escritora Camila Aguirre. A foto dela está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio da escritora.

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