Crônica | Encontros na madrugada4 min de leitura

São três da manhã. Uma pata gordinha bate em meu rosto e um choro baixinho pede atenção. Cheia de sono, abro os olhos e vejo que Chanel me vigia de perto. Ou imagino que ela está me vigiando. Ela é uma pug velhinha de nove anos e, como é característico da raça, levemente vesga.

Um de seus olhos está fixo em mim, mas o outro olha sem muita atenção o meu namorado, que dorme sem preocupações ao meu lado. Obviamente, não fora ele o escolhido para levar a nossa pequena senhora ao banheiro nesta noite.

Resmungando baixinho, me levanto e levo Chanel comigo. Ela corre feliz pelo apartamento, procurando o melhor lugar para fazer o que ela precisa fazer. Obviamente não é em cima do jornal especialmente arrumado para ela. Chanel é criteriosa. Prefere um bom tapete limpo e macio ou nossa própria cama quando está de birra. Ainda bem que hoje ela acordou de bom humor.

Ando um pouco pelo apartamento tentando espantar o sono enquanto espero. Ela termina e preciso correr para limpar antes que ela pise em tudo e saia caminhando atrás de mim. Que desastre! Ela levanta a cabeça e desta vez tenho certeza de que seus dois olhos estão, de alguma forma, olhando para mim. E eu já sei o que isso significa. Meu colo, um travesseiro macio e um bom carinho na barriga. E a madrugada segue.

***

São três da manhã. Sinto uma pressão no meu peito e uma lambida na cara, seguidas por um choro alto e sem frescuras. Quando tento me levantar, uma pata enorme bate em meu rosto e caio de costas de novo. Pelo menos o peso que estava sobre mim se desloca para o lado e se deita em cima do meu braço. Viro a cabeça e vejo dois olhos culpados me olhando atentamente. Fico imaginando o que a Arya teria aprontado desta vez.

Diferente da Chanel, a Arya nasceu nas ruas e, até ser adotada, precisava se virar sozinha para conseguir comida. De vez em quando ela resolve colocar em prática suas habilidades de caçadora e ai de nós se algum pedaço de frango estiver dando sopa em cima do fogão. Olho para a cara bochechuda dela e me levanto resignada para ver o que foi destruído desta vez.

Chego à sala e observo em volta, mas não vejo nada. Muito suspeito. Me viro para ela de novo, que me lança aquele mesmo olhar culpado de antes, como se soubesse que havia aprontado algo. E então me dou conta: não vejo nada, porque não há nada para se ver! Até a noite anterior havia um bolo inteiro na mesa, mas agora não há mais nada. Como eu queria comer aquele bolo! Mas parece que alguém foi mais rápido e comeu antes de mim. Que cachorra malandra!

Quando penso em ficar brava, ouço um barulho atrás de mim e percebo que Arya está passando mal. Aparentemente não foi só o bolo que ela comeu, mas também embalagem, guardanapo e tudo o que tinha direito. Sento ao seu lado e fico ali até que ela se sinta melhor. E a madrugada segue.

***

São três da manhã. Estou deitada, mas não consigo dormir. Viro meu corpo várias vezes tentando encontrar uma posição que me faça relaxar, mas em vão. Decido então me levantar e pegar um copo de leite. Quando estou na cozinha, começo a relembrar os últimos dias e me seguro um pouco para não chorar. Eu já imaginava que tempos difíceis estariam por vir, mas é sempre difícil quando eles chegam de fato.

Deixo o copo de leite intacto na pia e vou para o sofá me sentar. Enquanto me encolho, penso nas contas que preciso pagar e imagino como farei agora sem um emprego. Ser adulta e dona do próprio nariz é um pouco mais difícil do que nos falaram quando crianças. Minha cabeça cai para o lado e quando começo a desabar, sinto um focinho gelado nos meus pés. É Arya. Ela me vigia com olhos curiosos, como se pedisse permissão para subir também.

Abro um pouco de espaço para ela, que pula, não no lugar vazio ao lado, mas em cima de mim e eu caio para trás. Logo ela está me lambendo e eu não posso fazer muito, a não ser rir. Ouço um tek tek vindo do chão e vejo Chanel rebolando enquanto caminha em nossa direção. Ela para em frente ao sofá e um olho me observa enquanto o outro está voltado para Arya. Agora já não consigo me segurar e solto uma gargalhada ainda mais estridente que o latido da Arya.

Pego Chanel no colo e me sento com as minhas meninas durante a madrugada. Olho para elas e sei que vai ficar tudo bem.

Adele Lazarin

Goiana do pé rachado e carioca de coração, Adele é jornalista, tem especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing e já escreveu para alguns sites de cultura, como Cinema Com Rapadura e A Gambiarra. É fluente em inglês e italiano, pratica taekwondo e é apaixonada por literatura e cinema. Tem como hobby viajar, pensar em comida, abraçar cachorros e sonhar acordada. Aprendeu a desbravar novos mundos com Tolkien e ainda espera por uma carta de Hogwarts.

Últimos posts por Adele Lazarin (exibir todos)

Comentários

comentários

Deixe seu comentário. É importante para nós! ;)