Artigo | A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser3 min de leitura

Ao se deparar com as inúmeras críticas recebidas pelo filme Batman vs Superman, o diretor Zack Snyder não teve dúvidas na hora de apontar a razão para o blockbuster baseado nos dois maiores ícones da DC Comics ter ficado aquém das expectativas: “A principal coisa que aprendi foi que as pessoas não gostam de ver seus heróis serem desconstruídos. É difícil porque são personagens com os quais crescemos e com os quais nos acostumamos. Gostamos de vê-los em toda a sua glória”, afirmou durante as filmagens de Liga da Justiça.

Por sua vez, após amargar decepções cinematográficas como a adaptação do anime Speed Racer e, posteriormente, com O Destino de Júpiter, as irmãs Wachowski escolheram o mercado – “a indústria hoje está vivendo da criação de produtos, não de arte.” – e o público – “voltamos a ser crianças que querem a mesma história de ninar todos os dias, de novo e de novo.” – como motivos para os fracassos.

O que Snyder não explicou é como as pessoas aceitaram de braços abertos suas propostas visuais inovadoras e, por que não dizer, desconstrutoras no longa 300. Do mesmo modo, as Wachowskis teriam dificuldade para encaixar na tese anterior o fato do público ter amado o já clássico Matrix e a transgressora série Sense8.

Mas o padrão comportamental acima não é comum apenas a estrelas da sétima arte. Muitos escritores refutam a busca de razões internas quando suas obras não alcançam o objetivo almejado. No mundo da literatura, isso é facilmente percebido em discursos contra a política das editoras e até contra os leitores. É como se acreditassem numa grande conspiração global para que bons autores permaneçam no ostracismo mesmo num cenário que julgam estar abaixo de seus talentos.

Autor best-seller no Brasil, André Vianco resume bem a razão para o êxito de uma obra: “Quanto maior a conexão da história com o leitor, maior sua chance de sucesso”. Isso explica, pelo menos em parte, por que livros como Crepúsculo ou 50 Tons de Cinza atingem em cheio determinados públicos, mesmo que outros torçam o nariz. A explicação é a existência de elementos que conectam a história a essa fatia do público e algo assim não deve ser desprezado.

Não reconhecer a importância dessa conexão pode se tornar um grande entrave para o exercício da autocrítica e para a busca de aperfeiçoamento. Aceitar as críticas construtivas e enxergar nelas o feedback para o que não está funcionando numa história é o primeiro passo para acertar na próxima vez. No caso de Zack Snyder, a explicação para a resistência a Batman vs Superman pode estar tanto na desconstrução dos icônicos heróis quanto nas aparentes lacunas do roteiro. Por sua vez, as Wachowskis poderiam ter ponderado a hipótese do público não ter sido fisgado pelas alegorias psicodélicas de Speed Racer ou pela fragilidade do pano de fundo de O Destino de Júpiter. Deste modo, em futuros sucessos, não haveria a necessidade de perguntar no que público e mercado mudaram em tão pouco tempo.

Michel Costa

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura para trazer à tona histórias fantásticas que ficaram aprisionadas em algum lugar do passado.

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