Conto | A Partida4 min de leitura

Do meu quarto já posso ouvir as portas batendo, os passos se aproximando pelo corredor e a maçaneta sendo girada com cautela. Ah, logo serei “acordado” e chamado a cumprir meu compromisso de domingo de manhã. É dia de futebol.

Este não é um compromisso recente, pois se trata de uma tradição familiar. Sim, os Campos carregam, no nome e DNA, a fama de bons esportistas. Aliás, o campeonato municipal tem o nome do meu pai como homenagem.

Confesso que nunca fui entusiasta destas manhãs de domingo, cuja preparação começava no sábado à noite – “dormir é primordial para um bom desempenho”, dizia o velho. Sempre amei a madrugada e o silêncio que ela carregava. Se eu tinha que abrir mão dela para jogar futebol, azar do futebol.

Uma mão pequena e delicada pousa sobre o meu ombro:

– Pai, levanta que já tamo atrasados. Assim o treinador vai me deixar no banco.

Eu sei que é exagero dele – como é parecido com o avô –, pois ainda temos duas horas até o início do campeonato. Isso é tempo suficiente para tomarmos um café sem pressa, ler o jornal e levar o Scooby pra passear. Por isso finjo que estou dormindo.

Agora ele está em cima da cama, entre a minha mulher e eu, tentando me chacoalhar, tirar as cobertas, fazer cócegas no pescoço e arrancar um sorriso que prove minha peraltice. Esta, sem dúvida, é a melhor parte do dia pra mim, pois tudo o que é de mais caro neste mundo está ali, ao alcance das mãos, trazendo uma sensação de paz, relaxamento. Ao contrário do que pensava, a paz não vem do silêncio, mas, sim, da felicidade.

Minha respiração adquire um ritmo lento, um mantra, aprendido na yoga, faz com que me concentre. Na tentativa de enganá-lo, minha mente começa a embaralhar as memórias afetivas. Passado e presente são um só. Uma corrente elétrica perpassa por todo meu corpo, deixando um formigamento bom. Sinto meu peso mudar e o quarto crescer. Mais que isso, um cheiro que há muito não sentia invade minhas narinas e me toma por inteiro. Este cheiro de amor está acompanhado de saudade.

Desta vez o peso da mão é mais perceptível e o resultado de sua ação me faz acreditar ser um pandeiro. A voz fica mais firme, mais resoluta…mais grave:

– Filho, está na hora. Sua mãe já preparou o café, passou seu uniforme e ligou pro Chico avisando que passaremos lá daqui vinte minutos. Não preciso te lembrar de que assumiu um compromisso com seus companheiros de time e conosco, correto?

– Chico? Como podemos passar lá se o Chico já morreu?

Não abro os olhos porque não consigo. Um frio na espinha me paralisa e sinto o quarto girar, acelerar e estancar. Por milésimos de segundos ou por séculos, é difícil manter o foco nestas baboseiras como espaço e tempo, tudo que ouço são ecos: “levanta”. “Pedro”. “Acorda”.

Automaticamente começo a balbuciar que ainda é cedo, que quero dormir mais um pouco. Um turbilhão de pensamentos e imagens me atinge em todas as épocas.

As instruções na beirada do campo:

– Pedro, ‘um toque, e eis que a blandícia erra em tormento, e cada abraço tece além do braço a teia de problemas que existir na pele do existente vai gravando’.

– Pai, eu jogo no gol. Não preciso de poemas e, sim, de instruções.

– Instruções você tem do treinador, filho.

Dos aquecimentos antes dos jogos:

– Está na hora da escalada – ficávamos de frente um pro outro, dávamos as mãos e esticávamos os braços; aos poucos, eu me inclinava para trás e começava a escalá-lo como a um rochedo. Tudo bem pensado – primeiro sobre seus pés, depois o joelho, a virilha e finalmente o peito. Meu pai, uma rocha.

A infância acabou, o casamento ruiu e tudo que me restou foi um passeio a cada quinze dias. Os poemas dele eram soturnos, existenciais e intercalavam com algumas instruções sobre vida, amor e família.  Sempre se despedia citando o mesmo verso:

– “Viver-não, viver-sem, como viver sem conviver, na praça de convites?”

O coração dispara ao comando desta lembrança e o passado vai se distanciando novamente. Sinto meu peso voltar ao normal. Olho para o lado e encontro Ligia me observando, sorrindo. Suas mãos passeiam pelo meu cabelo num gostoso vai-e-vem. Ela me beija a testa e com um leve menear de cabeça me indica a direção oposta.

Lá está ele, me encarando com seus olhos agudos. Sua expressão é uma mistura de apreensão e alegria. De súbito me abraça e beija como se há muito não nos víssemos. Uma sensação calorosa me toma e se manifesta através das lágrimas que irrompem impetuosas, orgulhosas daquilo que representam. Daquilo que sempre representarão: nosso dia de domingo.

Rodrigo Chama

Nasceu em Cuiabá-MT no ano em que Elvis Presley e Charles Chaplin morreram. Tem orgulho ser conterrâneo de Manoel de Barros. Fez 12 anos no dia em que o muro de Berlim foi derrubado. Já foi biólogo, professor, bancário e gastrônomo. Quase se afogou duas vezes, talvez por isso tenha medo de tubarão. Joga boardgame, vai ao cinema sozinho, adora longas conversas e nunca percebe quando alguém está afim dele. Escreve sobre o que gosta e gosta de muitas coisas.

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