Conto | A Floresta e o Relâmpago3 min de leitura

O vazio é como uma doença que se prolifera lenta e constantemente, mantendo-se sempre à espreita de uma oportunidade propícia para atacar; o corpo é uma floresta, que pulsa com vida, preenchida de oxigênio. O inevitável relâmpago, em uma tempestade, rasga os céus, criando trajetórias sinuosas e ramificações irregulares, iluminando a escuridão com seu clarão azulado, gerado pela descarga elétrica entre duas nuvens carregadas de uma alma ferida.

O trovão ecoa tal qual tambores indígenas que antecedem um ritual, potente como um tiro e opressor como um tirano, avisando do perigo que se aproxima gradualmente. Sem motivo aparente, a chuva chega e despenca, interrompendo a paz; inundando a mata rasteira e fazendo encostas inteiras deslizarem.

O corpo, que o homem acredita que a tudo suporta, aguenta o impacto, pois o equilíbrio é saudável e o sol não pode estar sempre à disposição. Afinal, é mais fácil alguém valorizar o calor, quem já passou frio, e apreciar luminosidade, quem ficou na escuridão.

O vazio começa a se mostrar presente quando a tempestade não finda, emendando-se em outra, tornando-se cada vez mais potente, e o mundo transborda pelos olhos da floresta, que, sobrecarregada, sofre internamente.

Os relâmpagos insistem. Exigem a atenção não conferida anteriormente.

O corpo se acha capaz de superar qualquer obstáculo até que é tarde demais. Raios despencam e causam um incêndio florestal. A fumaça se condensa. O ar escurece. E, subitamente, o oxigênio some, engasgando a mais saudável das criaturas.

O vazio atinge seu pico quando as gotas da chuva não mais conseguem dar conta do fogo que se espalha, causando pânico e temor. A partir desse momento, o vazio se dissemina rapidamente, rasgando todas as barreiras restantes em seu caminho, queimando a floresta, matando o que antes era vida e cor. A solidão é a consequência do vazio animalesco, que, com garras, estraçalha cada pedaço da alma tão fragilizada.

Uma floresta queimada e nuvens, que se descondensam aos poucos, são tudo o que resta quando a tempestade acaba e o fogo termina de varrer o verde. Basta um vislumbre. A dor é evidente ao se observar a vida substituída pela morte em proporções imensuráveis. Tudo aquilo nada mais é do que o impacto. No fim das contas, a tempestade leva tudo embora, até mesmo a vontade de lutar.

Para alguns, o fim da esperança; para outros, a chance de um recomeço.

Sem que se perceba, o equilíbrio do meio natural se altera, reestabelecendo-se da forma como só ele sabe fazer. Os ventos carregam as cinzas para longe e os pássaros trazem novas sementes.

É preciso tempo, e, acima de tudo, paciência.

Uma floresta não cresce da noite para o dia.

Não basta que o solo seja fértil; o vazio precisa ser contido como uma fera alimentada, satisfeita momentaneamente.

Mudanças são inevitáveis e com o primeiro sinal de verde, a confiança aos poucos é recobrada. A vida é capaz de emergir das situações mais obscuras imagináveis e mesmo assim perpetuar, como uma pessoa prestes a se afogar ao inalar todo o ar que consegue de uma só vez ao alcançar a superfície.

Com um pouco de sorte, uma floresta se erguerá e um relâmpago novamente a fará tombar para que o ciclo possa recomeçar. E a vida, perpetuar.

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Vitória Castro

Nasceu em julho de 1995, em Taubaté-SP, cursa Ciências Jurídicas e Sociais na PUCRS, em Porto Alegre, onde mora. É formada em Inglês e Espanhol, aspirante à escritora e passa a maior parte do tempo em que não está envolvida com a faculdade afundada em livros e séries. Filha de militar e professora, tem vida de nômade e viaja nos fins de semana para ver a família. Acredita em bruxos, lobisomens e que, com um pouco de talento e esforço, tudo é possível.
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