Conto | O homem no retrato

Por: Adele Lazarin

Trovejou. João olhou para o céu e arregalou os olhos enquanto um calafrio percorria todo o corpo. Outro trovão e gotas geladas de chuva começaram a cair, molhando o cabelo, as roupas e a mochila do jovem viajante. O céu esbravejou novamente e desta vez João começou a tremer, não só de frio, mas também de medo. Odiava trovões.

A chuva se intensificou. Encharcado, João olhou ao redor procurando descobrir onde estava, mas era impossível encontrar algum sinal da trilha na escuridão que o envolvia. Mais um trovão se fez ouvir no céu nebuloso e um novo arrepio percorreu sua espinha, lágrimas permearam seus olhos e o desânimo caiu sobre seu corpo como um estrondo. João realmente odiava aquele barulho.

Mas algo não estava certo. Em vez de enfraquecer e logo sumir, o som do trovão se prolongou até se transformar em uma gargalhada aguda, fria e perversa. João se virou rápido, como se sentisse a respiração de quem quer que estivesse rindo sobre o pescoço, mas não havia ninguém ali.

Ele se virou de novo, apertando os olhos e tentando enxergar através da chuva, mas não havia nada. O coração estava acelerado e as mãos tremiam. A gargalhada continuava, ora mais perto, ora mais longe, mas sempre presente. João nunca pensou que uma risada pudesse provocar tanto medo e desconforto assim.

E então ela parou, subitamente, como se alguém tivesse simplesmente desligado o som. Em seu lugar, João ouviu passos apressados muito perto de onde se encontrava. Perto demais para o seu gosto.

Cerrou os punhos e se preparou para correr, mas quando levantou o pé para dar o primeiro passo, simplesmente não conseguiu sair do lugar. Estava paralisado. Antes que pudesse pensar no que fazer, algo grande e pesado bateu contra seu corpo e ele caiu no chão.

“Que diabos…? João! Encontrei você! Que fantástico, cara!”

João abriu os olhos e demorou um pouco para conseguir focar o rosto redondo do amigo bem à sua frente. As costas doíam e a boca estava cheia de lama. Mário, empolgado por ter encontrado o amigo, continuava deitado em cima de João, sem se importar muito com o desconforto que estava causando.

“O quê? Mário? De onde você saiu?”

Sem muita pressa, Mário se apoiou levemente no amigo e se levantou, pingando chuva e lama. Ofegando um pouco, João virou de lado para poder se levantar também e sentiu uma fisgada de dor enquanto se ajeitava. Tentando tirar um pouco o barro do rosto e das roupas, olhou para o amigo que estava de costas encarando o caminho por onde viera. João tremia de frio e de dor, e ainda estava um pouco abalado pelo susto que acabara de levar.

“Ali!”, gritou Mário e apontou para frente. “Eu fui buscar ajuda, e consegui, não é mesmo? Eu disse que conseguiria!”

João olhou para frente tentando enxergar através da escuridão e conseguiu vislumbrar, quase imperceptivelmente, um pequeno brilho ao longe.

“É um hotel, cara”, disse Mário ao ver a expressão confusa no rosto de João. “Fantástico, não é? E bem quando precisamos.”

“Sim…”

Mas João não sabia se aquilo era tão fantástico assim. Ainda se lembrava da risada maligna que tinha ouvido havia pouco tempo e o medo que aquilo havia lhe causado. Sentiu outro arrepio percorrer o corpo.

“Mário, escuta, você chegou a ouvir algum barulho agora, como uma risada?”

“Uma risada? É claro, cara! Sou eu rindo da minha genialidade!”. E Mário riu. “Vamos logo, cara. Você pode gostar de ficar aí deitado na lama, mas eu preciso de uma cama quente e seca”, disse, dando as costas para o amigo. João não teve outra escolha a não ser segui-lo.

***

Paredes frias de pedra logo se agigantaram à frente dos jovens e uma luz amarelada brilhou de uma das janelas entreabertas logo acima das enormes portas de ferro. Mas não era uma luz acolhedora. A expressão preocupada de João contrastava visivelmente com o sorriso satisfeito de Mário.

“Mário, você tem certeza? Tem algo errado aqui, posso sentir…”

Mário arregalou os olhos para o amigo.

“Você está com medo, cara?”, e riu. “Eu não acredito! Olha só, eu preciso dormir, tudo bem? Eu só quero dormir em uma cama, não aguento mais esse chão duro da estrada. Eu procurei por um lugar para podermos passar a noite, não foi? E achei, não foi? Então é aqui que vamos ficar.”

Mário se virou e já aproximava a mão da maçaneta desgastada, quando se virou de novo para João e sorriu. “Você também pode ficar aqui fora na chuva ouvindo esses trovões, se preferir. Eles estão ficando cada vez mais fortes, não estão? Ainda bem que eu tenho um lugar quente onde dormir”, disse com uma risada.

Enquanto Mário falava, um novo trovão se fez ouvir, mais forte do que os anteriores, e João sentiu novamente que havia alguém ali próximo dele, observando todos os seus passos e rindo para si mesmo. Ele não tinha escolha.

“Tudo bem, só não me apresse. Já estou indo. Só… toma cuidado…”

***

O interior do hotel não era mais quente do que o lado de fora. O saguão parcialmente iluminado com candelabros empoeirados e velas escuras era rodeado por paredes cobertas de retratos velhos. As escadas subiam em espiral até um teto que mal podia ser visto. Tremendo de frio, João olhou ao redor com um sentimento crescente de desconforto.

Os olhos dele pousaram sobre uma fotografia em preto e branco de um homem jovem com um meio sorriso estampado sobre o rosto. Não havia nada de excepcional na imagem, nada que pudesse chamar tanto a atenção de alguém, mas João não conseguia desviar o olhar. Os olhos do homem no retrato pareciam brilhar com vida e vigiavam atentamente o jovem à sua frente. Era como se soubessem de algo que ninguém mais poderia saber e se divertissem com isso. Era como se estivessem desafiando João a descobrir esse segredo.

Estático, o jovem não conseguiu se afastar. Até ouvir um grito.

“João!”

“O quê?!”

João pulou com o susto, tropeçou nos próprios pés e caiu de costas no chão. Com os olhos arregalados e o coração batendo forte, ele olhou assustado para onde Mário o esperava com um ar irritado. Ao lado do amigo, se encontrava um homem esquelético, pálido e corcunda. Longos cabelos cor de palha caiam por sobre o rosto, enquanto olhos pequenos e escuros iam do jovem no chão para o homem no retrato. Ele parecia se divertir com a situação, mas ficou sério quando se dirigiu ao rapaz:

“É espantosa, não é?”, disse. “A história de nosso querido mestre, quero dizer.”

“O quê?”, exclamou João mais uma vez. Sentindo que tinha sido grosseiro, tentou falar de novo. “Peço desculpas… Não entendi o que o senhor falou. Não sei bem o que aconteceu, mas acho que tomei um susto.”

“Você tomou um susto bonito e me passou vergonha, cara”, resmungou Mário. “Agora levanta daí. Este é o Riff. Ele trabalha aqui no hotel e ia me mostrar nosso quarto até você resolver se espatifar no chão.”

“Então vocês não conhecem a história de nosso querido mestre?”, comentou o homem chamado Riff, ignorando Mário. “Intrigante…”

João se levantou com cuidado e olhou para o homem à sua frente.

“Desculpa, mas o que é intrigante?”

Riff observou por alguns instantes o retrato em preto e branco e depois se virou para João e deu um sorriso.

“Este é o retrato de nosso querido e falecido mestre, meu jovem. É intrigante que você tenha ficado encantado justamente com esta imagem, considerando… tudo.”

João arregalou um pouco mais os olhos. “Considerando o quê?”, exclamou com a voz um pouco acima do tom.

“Ninguém se importa!”, interrompeu Mário. Os olhos anteriormente vazios de Riff brilharam levemente na direção do rapaz. “Me desculpem, interrompi vocês? Olha só, João, para de criar confusão. Já falei que estou cansado e quero dormir. Vamos logo ver nosso quarto, cara.”

“Certamente, jovem senhor”, concordou Riff. Os olhos do homem voltaram a ficar sem vida e ele seguiu à frente dos jovens para indicar o caminho. O grupo seguiu até as escadas na lateral do prédio e começaram a subir lentamente. Após avançar alguns andares, Mário começou a perder a paciência novamente.

“Por que precisamos subir tanto? Não imagino que tenham muitas pessoas se hospedando aqui, não poderíamos ficar em um dos quartos do primeiro piso?”

Riff parou e se virou para falar com os rapazes. Embora Mário tenha feito a pergunta, o homem olhava diretamente para João.

“Imaginei que seria interessante colocar vocês no quarto de nosso querido mestre esta noite, já que vocês se mostraram tão interessados na fotografia dele. É o nosso quarto mais luxuoso e o reservamos sempre para as pessoas mais… importantes.”

“Que fantástico!”, disse Mário com uma risada. “Viu só, João? Até que você não é um desastre tão grande assim.”

Mas João estava apreensivo. Ele esperou que Riff virasse de costas e voltasse a subir as escadas para conversar com Mário.

“Não sei se isso é tão fantástico assim”, murmurou João enquanto segurava o braço do amigo. “Você não acha isso meio mórbido? Ficar no quarto de um cara morto? E isso tudo é muito estranho. Esse tal de Riff é muito estranho! Sei não, cara. Acho melhor ir embora.”

Mário se soltou da mão do amigo e olhou para trás com o cenho franzido.

“Para de ser tão medroso, cara! Você quer voltar lá pra fora na chuva? Então volta! Eu vou ficar aqui, tomar um banho quente, dormir em uma cama macia e curtir esse luxo todo que acabamos de ganhar! Você pode fazer o que quiser, não me importo”. Virou as costas e continuou a subir as escadas, levemente ofegante.

João ficou parado por um momento, olhando as costas do amigo e pensando. De repente, um trovão se fez ouvir, mesmo dentro daquelas paredes grossas, e as luzes piscaram por um momento. João engoliu seco e recomeçou a subir as escadas.

Ao chegarem ao quarto, que ocupava todo o último andar, Mário logo entrou e se jogou na maior cama que havia ali, enquanto João se demorava um pouco mais na porta. Ele se virou para Riff, que o encarava, e perguntou: “Por favor, me conte o que aconteceu”.

Riff sorriu e os olhos dele brilharam novamente.

“Nosso mestre era tão querido, mas tão cruel. Ele era jovem como vocês e adorava receber convidados aqui no hotel. Mas também era bastante comum que muitos convidados não fossem mais embora. Nosso querido mestre gostava de… brincar com eles. As mãos dele estavam sempre vermelhas e ele tinha um constante sorriso no rosto. Mas um dia uma dessas brincadeiras não deu certo e ele foi encontrado sem o coração neste mesmo quarto. Enquanto tentávamos descobrir o que tinha acontecido, seu corpo sumiu e nunca mais o encontramos. Intrigante, não é?” Riff deu uma risada e seus olhos perderam o brilho. “Este é o nosso melhor quarto, espero que gostem. Ele carrega muitas lembranças”, disse e saiu, batendo a porta atrás de si.

João olhou exasperado para a porta sem saber o que fazer. Respirou fundo para se recuperar do choque e tentou empurrar a porta, mas ela estava trancada e por mais força que o jovem fizesse, ela não se movia. Desesperado, ele olhou em volta procurando por algo que pudesse ajudar.

“Mário! Mário, precisamos sair daqui!”

Mas ele só recebeu um ronco como resposta.

“Mário, acorda! Anda, precisamos sair!”, gritou João, enquanto sacudia o amigo na cama.

“Me deixa em paz, João. Vai embora se quiser, eu vou dormir.”

João encarou o amigo que voltara a roncar e depois se afastou. Caminhou até a porta e tentou chutá-la, em vão, e depois escorregou até o chão com as mãos apoiadas na cabeça, sem saber o que fazer. Ele conseguia ver a chuva através das janelas de vidro, mas sabia que não adiantava nada tentar abri-las. Eles estavam muito alto e não havia chance alguma de conseguirem escapar por ali.

Respirando fundo, João tentou pensar no que poderia fazer. Ele não conseguira fazer nada sozinho até o momento e provavelmente teria que esperar até que Mário acordasse. Talvez a porta só estivesse emperrada e, juntos, poderiam abri-la. Mário era muito mais forte que João. Ou talvez Riff aparecesse logo de manhã para abri-la. João teria então que esperar.

João poderia se levantar e deitar na cama menor, dormir um pouco e recuperar as energias. Afinal, estava tão cansado… Mas ele não conseguiu se mexer. Tirou as mãos do rosto e se abraçou. Tremia, não tanto de frio, mas de medo. Vários trovões se fizeram ouvir ao longe e a pouca luz que tinha no quarto logo se extinguiu. João não poderia fazer mais nada agora. Ele se encolheu um pouco mais contra a porta, fechou os olhos e tentou dormir. Em pouco tempo, entrou em um sono agitado e sem sonhos.

***

Uma risada ecoou ao fundo. Começou de forma quase inaudível, mas foi crescendo, crescendo, crescendo até se tornar insuportavelmente alta. João abriu os olhos, mas não conseguiu enxergar nada por causa da falta de luz. A risada estava ali, tão terrível como quando a ouvira pela primeira vez sob a chuva. Havia alguma outra coisa ali também.

Enquanto esperava que seus olhos se acostumassem com a escuridão, João tentou reunir coragem para se levantar e tentar descobrir de onde vinha aquela risada. Ele não precisou esperar muito. Logo os contornos de um homem começaram a aparecer.

Ele estava sentado na cama de Mário, bem à frente de João. Tinha a pele muito pálida, os cabelos elegantemente penteados e repartidos no meio, um meio sorriso e olhos brilhavam vivamente, mesmo no escuro. As mãos estavam sujas de sangue que pingava e escorria pela cama, transbordando pelas bordas e caindo no chão. Aquele sangue era recente. João então percebeu que não conseguia mais ouvir os roncos de Mário.

“Seja bem-vindo à minha casa, João. Espero que goste da estadia aqui.”

Ilustração: Travis Louie


Card alaranjado com a foto e a mini bio da escritora Adele Lazarin. A foto dela está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio da escritora.

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