Entrevista | Rob Gordon11 min de leitura

Todo escritor iniciante tem muitos questionamentos dentro de si: por onde começar? Quais são os erros mais comuns? Minha trilogia épica fantástica será publicada? Eu serei o novo Stephen King? O direcionamento que cada um dá para essas questões determina a qualidade de seu trabalho e as chances de ter seu manuscrito reconhecido. Numa conversa bastante descontraída com Rob Gordon, cronista do Championship Vinyl e do Championship Chronicles, apresentador do podcast Gente que Escreve ao lado de Fábio M. Barreto, roteirista da HQ Terapia e profissional do Word, fizemos essas e outras perguntas.

Conte Histórias: Nós temos visto muitos escritores querendo começar carreira, talvez nós do Conte Histórias sejamos prova disso. O momento ainda é favorável para quem está querendo se adentrar no mercado literário?

Rob Gordon: Eu acho que sim, o momento é bom, não é ideal por conta de vários fatores. O brasileiro ainda não lê, por mais que tenha muita gente lendo o povo mesmo não lê. E você tem o cenário econômico, a gente está numa recessão, isso é um fato, e o que acontece com qualquer mercado numa situação dessa é que você precisa enxugar equipe, você gasta menos e acaba perdendo espaço de manobra. A editora vai arriscar menos e vai pegar o que já é consagrado e não vai apostar num autor novo. O momento não é ideal mesmo, talvez tenhamos um dia, mas nunca tivemos no Brasil. Se você ficar sentado esperando o momento ideal e achando que nele você vai dizer “porra, eu estou voando em céu de brigadeiros”, isso não vai acontecer. Mesmo não sendo ideal, o momento é bom. Apesar de tudo isso você tem mais pessoas lendo.

CH: Quando sua carreira de escritor começou, quais eram suas expectativas? Conte-nos um pouco de sua trajetória.

RG: Sabe quais eram as minhas expectativas quando eu comecei? Nenhuma! Absolutamente nenhuma. Eu tinha uma posição confortável trabalhando como jornalista, eu conseguia me sustentar trabalhando como jornalista e eu comecei a escrever ficção por prazer. Eu montei o blog em primeiro lugar porque eu queria ter um lugar para salvar as minhas crônicas sem perdê-las, porque se você entrar no meu HD você vai achar que eu tenho algum problema mental (risos) e vai perguntar “como esse cara consegue sobreviver?” é tudo uma zona. Tem textos que eu adoro e eu sei que eu vou perder, porque eu sou um babaca, um imbecil (risos) e nesse ponto eu sou um vagabundo. Então se um dia eu perder aquilo, tem uma cópia salva em algum lugar. Então eu comecei a escrever pra me forçar a escrever. Escrevia pra mim. É claro que eu mandava pros amigos, divulgando entre eles. E logo depois disso surgiu um sonho, que eu ainda não realizei, que é de viver escrevendo só ficção. Então acho que uma grande dica é essa: reduza a expectativa. Quando você reduz a expectativa você se torna mais leve, e se você se torna mais leve, seu texto se torna mais leve e consequentemente melhor. Sonhe, é saudável sonhar. Mas na hora que for escrever, pensa no presente. Diga “eu vou escrever porque eu gosto”.

CH: Acho que é bem por ai…

RG: Claro! Você precisa sim saber o que o mercado está lançando, o que o público está consumindo. Mas você não pode ficar o tempo inteiro esperando que o mercado vá descobrir você. Tem muita gente que diz “quando o mercado me descobrir eu vou escrever meu livro”. Se você está com vontade de escrever o livro agora, escreva.

CH: Acho que essa preocupação excessiva em ter a obra reconhecida é um dos grandes erros. Uns tempos atrás eu dei uma navegada por alguns grupos de escritores no Facebook e vi muitos “gênios incompreendidos”, achando que as editoras tem um plano maléfico contra novos autores, mas o cara nem escreveu nada ainda…

RG: É! Eu acho que as pessoas estão mais preocupadas em como as pessoas vão reagir a sua história do que com a própria história. Cara, conte sua história! Escrever é um negócio tão gostoso, porra, eu adoro, eu me tranco aqui no meu mundinho, esse mundinho de quinze polegadas e no terceiro parágrafo esse mundinho é maior do que o mundo lá fora. Se o cara quer ficar famoso, tem reality show de monte por aí, você tem dezenas de ferramentas pra ficar famoso hoje, mas pô, se você gosta de escrever, decore essa frase. Internalize que você gosta de escrever. E pronto, é isso que você precisa. E se um dia o mercado te achar ótimo. Todo mundo quer ser lido, eu quero ser lido. O foco não tem de ser “eu vou fazer um texto para bombar”, tem de ser um texto ou uma história que você está afim e que vai te dar prazer fazendo. Se você quer ser publicado, vá atrás. Mas não parta do princípio que se você escrever será publicado e que se isso não acontecer você foi injustiçado. Não é assim que funciona.

CH: É…

RG: As pessoas entraram nessa paranoia de “todo mundo está sendo publicado e eu tenho de ser publicado também”. Não, o verbo não é esse. A frase é “todo mundo está sendo publicado e eu quero ser publicado também”. O seu texto não está fazendo falta para o mundo. Se ele estivesse, já teria sido publicado. Eu acho que as pessoas tem que relaxar, é uma coisa de foco, de colocar as coisas em perspectiva e trabalhar pra isso, divulgando texto, agindo de forma profissional, sendo profissional com o texto também. É um trabalho de formiguinha. Sempre diminua as expectativas.

CH: Sim.

RG: Com a internet, rede social, com essa democratização da criação de conteúdo, as pessoas enlouqueceram com esse negócio de ser famoso agora. Eu vejo muita gente enlouquecida com isso. O que esses likes querem dizer na vida prática? É como aquela piadinha que eu queria que fosse minha que é “ser famoso na internet é como ser rico com dinheiro do Banco Imobiliário”. Na internet você é tão bom quanto seu último trabalho. Elas estão buscando uma fama irreal e a produção de conteúdo, seja ele qual for, é uma coisa tão prazerosa que porra, não emporcalhem esse processo com esse anseio pela fama.

CH: Mudando o foco um pouco, uma das coisas que eu mais admiro no seu texto é como você apresenta algumas referências que você tem, mas que não ficam explícitas na história. Eu vejo muito do Luís Fernando Veríssimo, que eu sei que é um dos seus mestres. Mas vejo muito de Woody Allen e de David Foster Wallace no seu texto. Além do Veríssimo, quais são as suas principais referências de texto?

RG: O Woody Allen é um baita roteirista. Já cometeu uns erros, claro, mas o número de acertos é muito maior. Até mesmo nos filmes ruins dele eu sempre vejo um diálogo que acho muito bom. Achei legal você falar isso do Woody Allen porque eu nunca tinha reparado nisso conscientemente e quando você falou fez sentido. Eu escrevo crônica e diálogo é uma coisa muito importante em crônica e na minha vida em termos de escrita. Tem textos meus que não tem uma linha de narrador. Então Woody Allen é uma referência praticamente orgânica na minha vida. O Veríssimo não é orgânico, eu absorvi Veríssimo estudando os textos dele, vendo como ele preparava as piadas, como estruturava as narrativas, que horas ele enfiou o diálogo e o Woody Allen não, foi uma coisa mais orgânica, porque é um negócio que é tão bom que acabou me inspirando sem eu precisar pensar nesses elementos. Achei legal você ter falado isso, muito bacana. Agora, eu acho que outras referências são Will Eisner, nos quadrinhos, até porque minhas crônicas de “Anônimos & Urbanos” são Will Eisner puro. É aquela coisa de você estar sempre cercado de pessoas e perceber que está completamente sozinho no meio da rua. E o blues também, claro, que está completamente presente em Terapia…

CH: Entendi…

RG: Você está falando de referências de formato, eu tenho referências de conteúdo o tempo inteiro, de filmes que eu gosto e tudo o mais, acho que já falei isso no Gente que Escreve. Ás vezes, eu tô andando no mercado e já pensando alguma daquelas crônicas e de repente tá lá o Monolito do 2001: Uma Odisseia no Espaço fazendo parte da narrativa, então eu não sei, é mais forte que eu. Uma coisa que eu acho brilhante é o Terry Pratchett, eu acho que todo mundo que quer escrever humor precisa ler um ou dois livros do Terry Pratchett.

CH: Com certeza, ele é muito…não consigo nem encontrar palavras pra descrever.

RG: Chamar de genial nesse caso é pouco. De vez quando eu pego um livro dele aqui – nesse momento eu estou lendo Caçada ao Outubro Vermelho do Tom Clancy – mas de vez em quando eu estou no meio de um livro ou entre livros e eu digo: “Quero ler um Pratchett”. Às vezes eu nem leio o livro, eu leio umas dez páginas dele pra aguçar o meu cérebro com piada. Pra mim não é nem a piada, é o jeito como ele insere a piada dentro da história. É um negócio tão complicado, é um negócio tão bem construído que ele não para de contar a história pra contar a piada. Pra mim aquilo é o auge da perfeição, onde eu queria chegar. Ele está contando a história e você dá uma gargalhada com um negócio que ele falou e que faz parte da história. Ele coloca de um jeito que a história para, é tão orgânico e natural que às vezes eu leio uma piada dele e penso “isso tem que ser a minha meta de vida, escrever uma piada desse jeito”.

CH: O nível dele é insano…

RG: Exatamente. Mas pra resumir todas as referências acho que Will Eisner, Chico Buarque, Luis Fernando Veríssimo, blues, e… deve ter mais, mas acho que as principais são essas, eu devo estar sendo injusto com várias pessoas, estou procurando aqui, mas de cabeça são essas.

CH: Quando você fala de passagem do tempo, que eu vejo que é um tema recorrente nos seus textos, eu vejo muito do texto do David Foster Wallace. Os meus textos favoritos seus são esses sobre passagem do tempo.

RG: Passagem do tempo sou eu hoje. Quando eu tive depressão cinco anos atrás, hoje eu releio os meus textos dessa época, principalmente os Anônimos & Urbanos e vejo que tinha alguns temas que eram quase uma obsessão minha. Principalmente no Champ Chronicles eu vejo textos onde o eu personagem, o Rob Gordon disfarçado, vinha com o questionamento: “Será que o eu personagem sou uma pessoa boa?”. Eu ficava textos inteiros questionando se eu sou bom, eu não sei se eu sou uma pessoa boa e se eu estou passando por isso porque eu mereço. Passagem do tempo é um tema que eu escrevo muito porque eu estou velho, eu estou com 40 anos, eu começo a ter preocupação de cuidar de mim, não fumar tanto, comer melhor. Tem coisas que eu já fiz e beleza, mas tem coisas que eu quero fazer na minha vida e o tempo está passando. Eu penso nisso bastante e isso reflete no meu texto. Se a gente conversar daqui cinco anos esse tema provavelmente vai ter mudado.

CH: Faz sentido…

RG: Eu acho que eu já falei isso em algum lugar, se você pegar o meu blog de crônicas, ele é praticamente uma biografia emocional da minha vida. Se você olhar o primeiro texto que tem nele e ir avançando nos anos, você vai ver como eu estava me sentindo a cada ano da minha vida. Às vezes é difícil ver por ser uma metáfora muito grande e às vezes é escancarado. Você consegue acompanhar se eu estou feliz, se eu estou triste, se eu estou querendo saber se o que eu vivi até hoje valeu a pena. Então a passagem do tempo sou eu ficando um pouco paranoico com isso. É puramente emocional. Mas daqui a cinco anos eu provavelmente vou pensar “o tempo passa mesmo e foda-se, vou arrumar alguma outra coisa para escrever”.

CH: É uma terapia…

RG: Sim, sim. E ai com isso a gente volta pra primeira pergunta, você está fazendo uma atividade tão prazerosa, tão gostosa e tão íntima e aí vai ficar preocupado com o número de pessoas que vai ler o seu texto… Para com isso. Não polua a atividade de escrever com isso.

CH: Muito obrigado pelo seu tempo, Rob!

RG: Eu que agradeço!

Cesar Gaglioni

Cinéfilo e nerd, Cesar escreve sobre séries de TV, games e música no Jovem Nerd e escreve sobre todos os outros mundos possíveis em seu tempo livre. Amante do terror e do drama, tem Kerouac como seu ídolo pessoal. Editor do site Oligarquia Pop e um fanático por literatura, está escrevendo “O Fim de Quem eu Fui”, seu primeiro romance.

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Comentários

comentários

2 comentários em “Entrevista | Rob Gordon

    1. Quem bom que gostou! =) A fala dele é bem bacana, né? Quando nos prendemos demais àquilo que pode agradar aos outros, acabamos criando barreiras para a nossa escrita. Obrigado por nos apoiar aqui no Conte Histórias e continue nos acompanhando 😉

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