Conto | A Escolha9 min de leitura

O irritante barulho do despertador ecoou pelo quarto até João conseguir acertar o botão de soneca. Aproveitou que sua esposa já tinha saído para o trabalho e se espalhou na cama. A briga com o despertador se repetiu por mais quatro vezes, até João se dar por vencido e decidir levantar. Apesar da preguiça instalada em seu corpo, ele descansou de uma maneira que não conseguira nos últimos meses. A sensação de deixar toda a confusão dos últimos meses para trás era de ter tido um peso removido de seus ombros. Caminhou até o banheiro e deixou a água quente do chuveiro cobrir o seu corpo.


Um homem inconsciente e de cuecas se encontrava amarrado dentro de um porta-malas. O Estranho terminou de vestir as roupas do motorista, conferiu seu relógio e fechou a porta. Tudo estava dentro do cronograma.


João atravessou o corredor e entrou no quarto dos filhos. Uma cama de criança em formato de carro se encontrava vazia e desarrumada. Um leve ronco saía do berço que ficava ao lado. João se aproximou e beijou Matheus na testa.


Júnior não ouviu quando se aproximaram por trás e o agarraram. Seu coração disparou até que sentiu um beijo quente na bochecha.

“Bom dia, filhão!”, disse João enquanto dava um abraço apertado no filho mais velho.

“Caraca, pai! Que susto!”, reclamou Júnior limpando o molhado de suas bochechas após ser colocado no chão.

“Você não deveria estar na escola?”, perguntou João enquanto colocava café em sua xícara.

“Tô esperando o Sérgio com o carro.”

“Já comprou o presente de aniversário do papai?”

“O correio entregou seu presente de aniversário ontem, mas você só vai ganhar amanhã!”

“É? Cadê?”. João se divertia com seu filho tentando manter um segredo.

“Eu prometi só te dar no dia do seu aniversário.”

Uma buzina soou no quintal e Júnior olhou pela janela.

“É o Sérgio, pai! Tô indo!”

“Meu beijo?”, berrou João para o filho que já estava longe. A porta foi batida e em seguida escutou o barulho do carro indo embora.

João olhou para o relógio. Manoel chegaria em 30 minutos para levá-lo para uma reunião. Terminou o seu café e foi trocar de roupa.


João ouviu Manoel estacionar o carro e berrou:

“Já tô descendo, Manoel!”

O engenheiro pegou suas pastas, beijou a testa do agora acordado Matheus, que repousava nos braços de sua empregada Margarida e saiu de casa em direção ao carro parado no jardim. A janela do motorista estava aberta e Manoel não estava lá. Uma mão surgiu e tampou sua boca. Sentiu então uma picada no pescoço e sua visão foi ficando turva. Sua mente estava nebulosa a ponto de não conseguir processar o medo que sentia. Suas pernas logo cederam e tudo ficou escuro.

Para João não haviam se passado vinte minutos, porém para o resto do mundo já haviam se passado duas horas. Ele tentou se mexer, mas estava preso. Suas pernas estavam amarradas à cadeira e seus braços estavam amarrados sobre a mesa à sua frente. Olhou em volta desesperado. Parecia estar em um velho galpão.

“Tem alguém aí? Ajuda!”, berrou João.

O Estranho surgiu das sombras segurando dois objetos.

“Finalmente você decidiu acordar. O efeito da anestesia durou mais que o esperado.”

“Quem é você? Onde eu estou?”, João se debatia enquanto berrava. “AJUDA! ALGUÉM ME AJUDA, POR FAVOR!”

O homem misterioso riu.

“Não tem ninguém aqui perto, João. Pode berrar o quanto você quiser! Ninguém te ouvirá.”

“Você quer dinheiro? Me diz quanto você quer! Eu arrumo!”, negociou João. “Além disso, sou péssimo com rostos, jamais conseguiria te identificar. Me solta e eu mesmo te dou a quantia que você deseja.”

“Dinheiro não vai resolver sua situação, João. Afinal, ele foi o responsável por te colocar aqui. Ao invés disso, quero propor um jogo para você.”

O Estranho se sentou e colocou os dois objetos que segurava em cima da mesa. Eram duas caixinhas de madeira com botões vermelhos.

“O jogo é o seguinte: existem duas bombas e dois botões. Um deles detona uma bomba embaixo da minha cadeira e o outro detona uma embaixo da sua. Você tem até meio dia e meia para escolher um”, disse o homem enquanto aproximava as caixas das mãos de João.

“Quem é você? Por que está fazendo isso comigo?”. João ainda se sacudia tentando afrouxar as cordas.

“Você realmente não se lembra de mim, né? Também dentre todas as suas vítimas, como você se lembraria?”

“Não sei do que você está falando, seu louco! Me solta!”. João se agitava como um animal pego em uma rede.

“Claro que sabe. O sangue ainda está fresco nas suas mãos, apesar da Justiça não ter reconhecido o quanto elas estavam sujas.”

O Estranho percebeu a culpa nos olhos de João. Ele havia lembrado.

“Isso mesmo, João. Eu fui uma das pessoas que escapou do seu prédio. Infelizmente não posso dizer o mesmo da minha família.”

“Isso é tudo um engano, a empresa foi absolvida, EU fui absolvido!”. João era refém do desespero.

“A Justiça pode ser comprada e dinheiro é algo que vocês têm. Afinal, trocar materiais da construção por outros mais baratos deve ser bastante lucrativo. Considere-se sortudo, eu poderia estar indo atrás da sua esposa e dos seus filhos. Isso sim, nos deixaria quites. Agora, vamos jogar!”

“Não vou jogar porra nenhuma, seu filho da puta doente!”

O homem puxou uma 38 e a colocou sobre a mesa.

“Ou você joga ou vou estourar sua cabeça. Pessoas como você estão acostumadas a burlar as regras, mas nesse jogo, as regras são minhas e você vai jogar conforme elas.”

“Deus, isso é tão injusto!”, reclamou João para si mesmo.

“Injusto?!”, o Estranho protestou furioso. “Injusto é perder minha família para a ambição de homens como você. Você tem 50 % de chances de sair daqui vivo. Isso é muito mais justo do que você merece.”

João estava encurralado, mas ainda tinha uma cartada.

“Sabe de uma coisa? Vou jogar o seu jogo! Mas você esqueceu uma coisa. Como você mesmo disse, pessoas como eu não sabem seguir as regras”. João colocou as mãos sobre os dois botões. “Me solta ou eu aperto os dois e ambos morremos!”

“Você não vai fazer isso, João. Nós dois sabemos.”

“Aponta essa arma para mim de novo e você vai descobrir!”, ameaçou João.


Margarida terminou de trocar a fralda de Matheus e o devolveu ao berço. Ao virar, esbarrou na cômoda e um boneco de Júnior rolou para baixo da cama do garoto. Ela se abaixou e tateou em busca do boneco, quando sentiu uma caixa em sua mão. Puxou e encontrou uma caixa de presentes com o nome de seu patrão. Devolveu ela para seu lugar e continuou tateando até achar o boneco.


Magro recebeu um belo passe de Júnior e bateu para o golzinho improvisado. A bola passou perto da trave e ficou presa embaixo de um carro.

“Bora, Júnior!”, chamou Sérgio que estacionou perto de onde a bola estava presa.

Júnior se despediu e Magro o acompanhou.

“Que gol tu perdeu, hein, Magro?!”, disse Sérgio divertidamente.

“Peguei com a parte errada do pé, seu Sérgio”, respondeu Magro.

Júnior entrou no carro e Magro abaixou para pegar a bola. O carro partiu antes do garoto perceber a luz piscando sob ele.


“12:25, João! Chegou a hora de se decidir. Se você me fizer atirar na sua cabeça, eu juro que vou pensar seriamente em visitar a sua família para descobrir se eles também são incapazes de seguir regras”, o Estranho falou de maneira impaciente.

“Filho da puta! Não toque na minha família! Me solta ou eu te levo junto!”. João se comportava feito um animal encurralado.

“Eu duvido!”. O homem engatilhou a arma e a apontou para João.

João fechou os olhos e apertou os dois botões.


João abriu os olhos, mas nada havia acontecido. Ele ainda estava vivo.

O Estranho o encarava com um leve sorriso de satisfação no rosto.

“Por que você tá sorrindo, seu mentiroso de merda? Cadê teu joguinho? Onde estão suas regras? Era tudo uma mentira, né?”. Ele poderia morrer, mas teria seu minuto de vitória antes.

“Não era TUDO mentira. Existiam de fato as duas bombas e elas eram acionadas por esses botões. Apenas contei duas mentiras, afinal para jogar contra pessoas como você é preciso trapacear. A primeira foi quando disse que essas bombas estavam aqui e a segunda foi quando falei que poderia ter ido atrás da sua esposa e filhos. Na verdade, eu fui atrás dos seus filhos.”

O sorriso no rosto de João desapareceu.

“Ontem, o carteiro te fez uma visita e entregou uma encomenda para o seu filho. Disse que era um presente que tinha sido enviado para você, mas ele só poderia ser entregue no seu aniversário. Perguntei se ele poderia guardar segredo e esconder ele até lá. Ele não conseguia disfarçar a empolgação! Sabe como são as crianças! E antes de atacar o seu motorista hoje, eu passei na casa do Sérgio e coloquei a segunda bomba embaixo do carro dele. Eu tenho vigiado sua família de perto e sabia o horário em que seu filho voltava da escola.”

“Não, não! Você está mentindo”. João tentava conter as lágrimas. Sabia que no fundo aquilo era verdade. De que outra maneira aquele homem saberia sobre os horários do filho e do presente recebido?

“Agora eu vou sair daqui e ligar para a polícia vir te salvar”, o Estranho disse ao levantar e partir.


Os policiais chegaram e resgataram João. Não havia sobrado muito do carro de Sérgio e de sua casa. Sua esposa o abandonou alguns meses após o funeral de seus filhos.


O barulho irritante do despertador de João ainda ecoava quando o acharam enforcado em seu quarto.

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Yuri Szirovicza

Nascido no Rio de Janeiro em 1993, sonha ser escritor desde 2002 quando escreveu sua primeira história que possuía 30 protagonistas. Felizmente, aprendeu a trabalhar com menos personagens de destaque. Ama quadrinhos, filmes e longas caminhadas na praia e odeia escrever sobre si mesmo na terceira pessoa.
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