Resenha | O Lobo das Planícies: Uma história de vida4 min de leitura

Quando iniciei a leitura de “O Lobo das Planícies” não sabia muito bem o que esperar. Talvez um recorte ou um outro ponto de vista para a série da Netflix, “Marco Polo”. Mas qual não foi a minha surpresa ao me deparar com uma história apaixonante sobre família, resiliência e força de vontade. Uma verdadeira história de vida. Nesse primeiro livro da série “O Conquistador”, de Conn Iggulden, somos apresentados à Temunjin, que se tornaria um dos maiores estrategistas da história, Gengis Khan, e ao império Mongol, de forma cativante.

Iggulden estudou a fundo, inclusive com pesquisas de campo, a história dos mongóis, seus costumes sua culinária, suas lendas, seu modo de vida.  O resultado é uma obra imersiva que nos coloca para cavalgar ao lado de Temunjin e seus irmãos.

Acompanhar o desenvolvimento do menino, traído e abandonado para morrer ao lado da família, no grande Gengis Khan se torna uma aventura deliciosa pela escrita simples do autor, que não exagera em nenhum ponto. As descrições são precisas e situam o leitor no contexto a ponto de sentirmos o vento das estepes durante a leitura. O grande conhecimento de Iggulden sobre a região contribui muito para isso. Ele prova que o trabalho minucioso de pesquisa valeu a pena.

Os personagens, em sua maioria são bem construídos. Uma ressalva talvez possa ser feita em relação à mãe de Temunjin, Hoelun, embora a força e determinação dela sejam exploradas no início – principalmente no momento em que a família é abandonada para morrer – na segunda parte do livro a personagem é mal aproveitada e não fosse a marca já impressa nas primeiras páginas acabaria sendo esquecida no decorrer dos capítulos. O mesmo não acontece aos outros membros da família, os irmãos do clã crescem muito ao longo da narrativa, inclusive o caçula, Temuje, descrito como o mais fraco entre os filhos de Yesujei, que se esforça para estar a altura dos feitos dos irmãos maiores.

Mas o que mais me chamou a atenção no livro é justamente a construção do mito Genghis Khan. Em muitos momentos podemos questionar suas atitudes, mas no fim as compreendemos, pois se encaixam perfeitamente em sua personalidade. Ele não poderia agir de forma diferente. O desejo de Temunjin é unir as muitas tribos mongóis, separadas por ódios antigos, tornando-os um único povo, forte e indestrutível. Ele sabe, pois vivenciou isso na própria carne, como serão fracos se estiverem separados, desgarrados. Entende a força na união, e fará o que julgar necessário para unir o seu povo. Nesse primeiro livro conhecemos as motivações do jovem e é difícil não torcer por ele.

”  Nós alimentamos o solo com nosso sangue, com nossa rixa interminável — disse, depois de um tempo. Sempre fizemos isso, o que não significa que devamos fazer sempre. Eu mostrei que uma tribo pode vir dos quirai, dos lobos, dos woyela, dos naimanes. Somos um povo, Arslan. Quando tivermos força suficiente, eu farei com que eles venham a mim, ou vou derrubá-los um a um. Somos mongóis, Arslan. Somos o povo de prata, e um cã pode liderar todos nós.”

As batalhas são outro ponto forte do livro, novamente a descrição nos faz sentir em meio ao conflito, ora temos uma visão ampla do que se passa, com chuvas de flechas e cavalos se batendo, ora estamos ao lado do soldado ferido e sentimos sua dor. Acompanhamos a seta que voa do arco retesado até encontrar a garganta do inimigo. Aprendemos a odiar tártaros e a temer a morte de um irmão. Este narrador que se afasta e se aproxima dos personagens de acordo com o momento da história dá a obra o tom certo, tornando todo o cenário bastante crível. O início de um dos maiores impérios já existentes é desenhado com perfeição nesse primeiro volume.

Há também a introdução de elementos que remetem a um arco maior, como o Império dos Jin, uma força muito mais poderosa do que Temunjin e seus irmãos já haviam enfrentado. Acredito que os próximos livros irão explorar bem esse choque de realidade e a mudança de perspectiva na vida do “povo de prata”.

“O Lobo das Planícies”, assim como a obra anterior de Iggulden, O Imperador, não é uma biografia, é um romance que parte de fatos históricos. Portanto, não podemos ou não devemos olhar para esse livro esperando fidelidade ao que aconteceu de verdade. Até mesmo porque a figura de Gengis Khan está envolta em lendas.

Terminei o livro com vontade de ler mais, de saber mais. Sorte que a série conta com outros quatro volumes, publicados pela editora Record, em um belo trabalho, com muita qualidade. Livros bonitos que valem a pena ter na estante e nos quais podemos nos perder entre as páginas.

Pintura: Gêngis Khan, por Giuseppe Rava

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Tiara Gonçalves

Mineira que trocou o norte de Minas Gerais pelo interior de São Paulo, Tiara é analista fiscal e apaixonada por números e palavras. Deixou a literatura tomar conta de sua vida nos últimos anos. Escreve principalmente sobre magia e fantasia, pois acredita que é preciso sonhar e fugir (um pouco) do mundo racional. Quando não está envolta em decifrar nossa complexa legislação tributária, gosta de levar o filho, Pietro, para dentro de suas histórias, lugar onde constroem castelos e matam dragões, porque todas as crianças merecem se aventurar por mundos mágicos.
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