Resenha | Caçadores de Trolls3 min de leitura

Os fãs de Guillermo Del Toro atraídos pelo nome do mexicano impresso na capa de Caçadores de Trolls (Intrínseca, 2015), provavelmente, não lamentarão o que irão encontrar. As 340 páginas da obra assinada em parceria com o premiado autor estadunidense, Daniel Kraus, traduzem toda a fantasia presente na filmografia do diretor: um conto de fadas com boas pitadas de sangue, humor ácido, fuga da realidade. Está tudo lá. Mas vai além.

Estruturalmente, a aventura vivida pelo adolescente Jim Sturges se apoia na conhecida jornada do herói. O protagonista deixa o mundo comum para trás e se depara com uma realidade onde trolls monstruosos ameaçam a segurança de sua pequena San Bernardino e, por consequência, de todo o planeta. Nessa trajetória, encontram-se presentes o melhor amigo, a amada inalcançável, o rival local, o inimigo maior, além do mistério a ser desvendado. Tudo como reza a cartilha de Joseph Campbell.

Contudo, diferente do que vemos com frequência em romances Young Adult, nos quais os protagonistas se descobrem especiais e nunca retornam à vida normal, o garoto Jim precisa lidar com seus velhos problemas na escola e em casa enquanto enfrenta a ameaça de trolls que desejam sair do submundo e invadir a superfície. Ponto para Del Toro e Kraus.

A narrativa adotada pela dupla de autores é primeira pessoa, mas, em diversos momentos, nota-se uma narrativa em terceira pessoa de forma bem disfarçada. Um recurso extremamente útil quando há necessidade de expor fatos anteriores à narrativa regular. Sob a condução do protagonista, o leitor consegue tanto se colocar em seu lugar, quanto receber as diversas informações acerca da mitologia dos trolls e de seus caçadores sem que isso pareça artificial.

O antropomorfismo, marca indelével dos filmes de Del Toro, também está presente em Caçadores de Trolls. Assim como se viu em películas como O Labirinto do Fauno e Hellboy, as criaturas que cruzam o caminho do garoto Sturges exprimem sentimentos, objetivos, além de um background incomum em obras do gênero.

Outro aspecto positivo do texto é a facilidade com que os autores amarram situações cotidianas como o desaparecimento de crianças nos Estados Unidos, popularmente representado pelas fotos em caixas de leite, com as ações malignas dos trolls. O drama familiar de Jim Sturges é bastante explorado. Abandonado ainda criança pela mãe e criado apenas pelo pai traumatizado por uma experiência com trolls na infância que lhe custou o irmão Jack, Jim recebe contornos de tridimensionalidade que geram uma empatia quase automática.

Como momentos baixos do livro, é possível citar a perda de ritmo no segundo ato – quase pecado na literatura atual – a lacuna de detalhes a respeito do sumiço da mãe de Jim e [spoiler] a quase total ausência de explicação para o não envelhecimento do agora guerreiro Jack Sturges […]. A suspensão da descrença é condição sine qua non para quem deseja mergulhar no mundo da fantasia, mas, se as explicações couberem naquela realidade, qualquer situação, mesmo absurda, pode ser absorvida. Apesar disso, essas pequenas derrapagens não interferem na leitura, além de manterem intacta a vontade de acompanhar mais aventuras dos Caçadores de Trolls.

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Michel Costa

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura para trazer à tona histórias fantásticas que ficaram aprisionadas em algum lugar do passado.
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