Conto | O Caminho da Estrela9 min de leitura

A mochila carregada pesava em seus ombros. Dentro havia apenas dois livros escolares, o resto eram suas histórias preferidas que gostava de carregar consigo, sempre preparada para quando se sentisse sozinha ou perdida. Alice tinha cabelo curto, olhos grandes e sonhadores e os joelhos e cotovelos ralados por causa de suas aventuras no jardim de casa. Era baixa para uma garota de 10 anos, mas não se importava com isso, apesar das brincadeiras dos colegas de sala.

Era fim de tarde e ela voltava sozinha para casa. Enquanto caminhava, olhava para baixo, atenta a qualquer irregularidade no chão que a fizesse cair. Sem perceber, o ar a sua volta começou a ficar mais denso e o mundo pareceu se fechar. Ainda olhando para o chão, percebeu que, aos poucos, iam surgindo fiapos de grama no concreto, até que, de repente, um mar de verde se abriu à sua frente. Sem entender o que havia acontecido, Alice levantou a cabeça e se deparou com inúmeras árvores bloqueando seu caminho. Árvores compridas, finas, as folhas em vários tons de verde e sem galhos baixos que possibilitassem alguém de seu tamanho subir.

Alice virou a cabeça e viu mais árvores. Elas estavam por toda a parte. O caminho que havia feito desaparecera sem deixar sinais. Assustada e sem entender o que estava acontecendo, ela continuou a olhar para todos os lados, procurando descobrir como sair dali. Gritou por sua mãe, gritou por seu pai, gritou por qualquer um que pudesse ouvi-la. Sem mais escolhas, resolveu se embrenhar naquele mundo desconhecido de árvores.

Caminhando devagar, mas agora olhando para todos os lados em vez de se focar no chão, Alice estava atenta a qualquer sinal de alguém ou alguma coisa ou qualquer som ao redor. No entanto, tudo estava em silêncio. Nem um passarinho ou inseto resolveram se mostrar para ela. Assim ela caminhou por quase meia hora, totalmente sozinha na imensidão de árvores, a mochila pesando em seus ombros.

Então ela ouviu um grito. E não era um grito humano. Ela tinha certeza de que não era um grito humano. Era gutural, grosso, irritado, quase um rosnado. Alto e longo, o grito foi sucedido por outro. E depois outro. E então vários. E o mais assustador era que pareciam estar cada vez mais perto dela. Logo pôde ouvir também o som de passos fortes, decididos, quase desrespeitosos. E eles se aproximavam.

Alice não pensou duas vezes. Voltou a olhar para frente e correu como nunca havia corrido antes, desviando-se de todas as árvores, galhos e raízes que apareciam à sua frente com surpreendente leveza. A mochila agora quase rasgava seus ombros, mas largá-la era algo impensável. E não havia tempo para isso, o barulho dos gritos e passos se aproximava com mais velocidade ainda.

De repente, uma clareira se abriu a sua volta. As árvores se afastaram e Alice podia ver o céu que escurecia rápido. Logo ela não teria luz para achar o caminho de volta ou simplesmente fugir. O que quer que a estivesse perseguindo, estava bem próximo. Não tinha como escapar dali, pois as árvores não a escondiam mais e ela poderia ser facilmente vista. Olhou em volta desesperada até que seus olhos descobriram um pequeno tronco no chão, mas suficiente para abrigá-la. Ela correu para dentro dele. Bem a tempo.

Uma pata negra de garras afiadas pisou na clareira. Uma segunda pata a seguiu e logo várias patas estavam caminhando pela clareira. Todas pertenciam a corpos enormes, musculosos e cheios de feridas de onde emanava um cheiro de podridão. Um suor sujo como lama escorria dos seus braços e olhos amarelos e opacos saltavam de suas cabeças tortas e deformadas, olhando em volta e procurando por algo.

Alice suprimiu um grito. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto reconhecia aqueles seres asquerosos parados na clareira. “Ogros!”, pensou. Os monstros carregavam facas tortas e machados afiados que brandiam contra o céu, urrando e farejando o ar.

Enquanto olhava tudo através de um pequeno buraco no tronco onde se escondera, Alice se segurava para não chorar. Ela estava suada, suja e com muito medo. Seu corpo tremia, sua respiração estava ofegante e o seu coração apertado. Mesmo assim, fez esforço para não fazer barulho. Ela precisava fazer algo logo, pois não havia dúvidas de que seria descoberta.

A garota respirou fundo tentando reunir o pouquinho de coragem que ainda tinha. Não podia esperar que eles a encontrassem. Não podia morrer ali. Olhou para um punhado de pedras ao lado de sua mão direita e pegou a maior. Com muito cuidado, se apoiou em um braço e levantou o outro, jogando a pedra com a sua pouca força pelo buraco do tronco. Mas foi o suficiente para que a pedra fosse parar do outro lado da clareira, atraindo todos os olhares para aquele lugar e, por um breve momento, longe dela.

Sem esperar para ver se todos os ogros estavam olhando para o outro lado, Alice se jogou para fora do tronco, caindo por um segundo. Tempo suficiente para que um ogro a notasse e partisse em dois o tronco onde ela estivera. Mas Alice já havia se levantado e voltado a correr. De repente, sentiu o chão sumir debaixo de seus pés. Não conseguiu se equilibrar e caiu de boca no chão, rolando morro abaixo sem ter como parar. Seus braços e suas pernas se encheram de arranhões e sua boca de lama, mas ela não podia fazer nada. Continuou rolando até que subitamente parou. Sua cabeça bateu no chão plano e ela olhou para o céu, que não mais girava.

Seu corpo todo doía e seu rosto, seus braços e suas pernas sangravam. Ela não conseguia se mexer. Estava prestes a se entregar à dor, quando ouviu uma voz pura, diferente dos urros que havia escutado antes.

“Olá.”

Alice abriu os olhos depressa. Levantou a cabeça e viu que estava deitada à beira de um lago tão cristalino como a voz que ouvira. De dentro do lago saia o pescoço fino e delicado de um dragão, seus olhos azulados, assim como a sua pele, fitavam-na com uma mistura de preocupação e afeto. Deitada sobre ele, a mulher mais linda que Alice já vira: uma ninfa d’água.

Seus cabelos prateados caiam como cascatas sobre seus ombros alvos. Os olhos claros como o lago ao seu redor analisavam a menina com uma delicada curiosidade e sobre seus lábios segurava um sorriso acolhedor.

“Espero que você não esteja muito machucada. Aqueles ogros logo irão aparecer aqui te procurando. Aliás”, a ninfa se levantou um pouco e olhou ao redor, “eles já estão chegando. É melhor você fugir.”

Mas Alice não conseguiu se mover. Olhava maravilhada para a ninfa e o dragão.

“Acho que ela precisa de ajuda”, murmurou o dragão.

“Então a ajudaremos!”. Entre risadas, a ninfa saltou do dragão e aterrissou suavemente ao lado da garota. Sorrindo, tomou sua mão e a conduziu gentilmente até a beira do lago, onde repousava a cabeça magnífica do dragão. “Suba! Ele vai te ajudar a encontrar o seu caminho para casa.”

Antes que Alice pudesse dizer qualquer coisa, a ninfa a jogou por cima do dragão e deu mais um salto à frente, justamente quando os primeiros ogros apareceram.

“Segure-se, garota. E prenda a respiração”, murmurou o dragão.

A ninfa girou no mesmo lugar e ao levantar as mãos para o alto, toda a água do lago emergiu em uma gigante onda, inundando todo o lugar, engolindo árvores, ogros, dragão e garota. Com o susto que levou, Alice acabou esquecendo-se de inalar bastante ar e já se encontrava sem fôlego, quando sentiu que subia. O ar seco bateu em seu rosto como um golpe quando finalmente, ela e o dragão, saíram da água e se encontraram com uma noite estrelada.

Alice, agora molhada e com frio, sentiu o vento gelado da noite batendo em seu corpo, mas não se importou. Ela voava! Voava cada vez mais alto, cada vez mais perto das nuvens, da lua e das estrelas. Sua barriga saltitava sem parar e Alice sentiu uma imensa vontade de rir. Rir, não. Gargalhar. E gargalhou noite adentro montada em seu dragão feito de água.

“Vê aquela estrela?”, perguntou a criatura.

“Qual estrela? São tantas…”

“Espere um pouco”. O dragão inalou e soprou. Em vez das esperadas chamas, de sua boca saiu uma bruma que se espalhou por todo o céu, mas logo se dissipou. “Olhe de novo.”

E Alice olhou. Assim que a névoa sumiu, a garota encontrou o que estava procurando. Não tinha como se enganar agora, só podia ser aquela estrela; a maior e a mais brilhante que ela já vira.

“Essa é a Estrela dos Sonhadores. Muitos a chamam de Estrela dos Solitários, mas gosto mais do primeiro nome. Guie-se por ela e você nunca estará perdida. Ela vai te levar para casa, mas também a trará de volta para cá quando quiser.” Enquanto o dragão falava, Alice percebeu que os dois desciam lentamente. O chão estava bem próximo e sua barriga já não dançava mais. Alice também notou que não estava mais suja e nem machucada. “Provavelmente por causa da água da ninfa”, pensou.

“Agora eu preciso te deixar”, disse o dragão. “Você deve continuar seu caminho sozinha, mas estaremos sempre aqui te esperando.”

Alice desceu do dragão e agradeceu. Antes de se despedir, deu um forte abraço em seu novo amigo e prometeu voltar, mas, na próxima vez, viria sem medo. Armada de coragem renovada, a garota baixa e de olhos grandes sorriu para a sua estrela e começou a seguir seu caminho de volta.

Adele Lazarin

Goiana do pé rachado e carioca de coração, Adele é jornalista, tem especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing e já escreveu para alguns sites de cultura, como Cinema Com Rapadura e A Gambiarra. É fluente em inglês e italiano, pratica taekwondo e é apaixonada por literatura e cinema. Tem como hobby viajar, pensar em comida, abraçar cachorros e sonhar acordada. Aprendeu a desbravar novos mundos com Tolkien e ainda espera por uma carta de Hogwarts.

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